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Cartas ao espelho

by em 16/09/2015

Prezado senhor,

Desconheço uma forma agradável de iniciar esta carta, pois não há homem vivo que se sinta confortável ao ser francamente confrontado pelo que de mais sombrio carrega na própria natureza. Mas vá lá. Há um surrado e verdadeiro ditado que anuncia o seguinte: “quem avisa, amigo é”.

Foram tantos os dias de silêncio que em silêncio permaneci no dia em que você chegou. Sem aviso, entrou pela porta e fez uma leve mesura. Fiquei curioso, mas mantive-me quieto, afinal, primeiro dá bom dia aquele que chegou por último. Não sei se recordas, mas passou a falar distraídamente sobre coisas banais, como o vento, os livros que deixara de ler e os tantos outros que pretendia ainda desbravar. Falou ainda sobre o estado das coisas, que sempre tendiam a piorar com a chuva, visto que as casas da cidade andavam mal cuidadas. Nem sempre foram assim, disse eu, ainda meio quieto, dando-lhe coragem para prosseguir. Vez ou outra sorria, é verdade, mormente quando o assunto passava pelo prazer com que os esportes de verão presenteavam os jovens que guardavam menor apreço pela solidão do lar. Surpreso, percebi que aquela tarde quieta sustinha uma sensação agradável, como se velhos amigos, há muito distantes, tivessem redescoberto o carinho que mantinham um pelo outro. Havia ainda momentos de silêncio, mas já não eram um incômodo e sim mera pausa para a justa reflexão sobre tudo o que fora dito. E assim, gradativamente, o silêncio foi se desvanecendo em meio às risadas e lembranças de tempos mais simples, em que a tudo se podia sorrir. É curioso como as risadas são mais frequentes e intensas quando somos crianças. Produto da imaturidade, eu dizia: “na infância, a única reação sincera à euforia e à alegria é uma boa e gutural gargalhada”. Tendemos, todavia, a enxergar as coisas de forma mais séria e impassível na medida em que crescemos, quando então os momentos de alegria são contidos em maior ou menor medida pela complexa rede de agravos e preocupações inerentes à vida adulta. Nossos olhos se estreitam diante da luz e ficamos insensíveis às cores mais vivas. Mas ali estávamos nós, rindo como crianças novamente, alheios a tudo o que passara e a tudo o que viria. Não falávamos mais de passado, tampouco do futuro, nossas vozes, agora, eram guiadas apenas pelo prazer egoístico que representava aquela ausência momentânea de solidão. Banido estava o desespero velado que experimenávamos todos os dias nas nossas casas e camas vazias. Era tudo, é claro, uma ilusão conhecida, que era recebida de bom grado naquela tarde em particular. “Antes o embuste de um sorriso que uma leal navalha entre as costelas”, dizia-me. Levantou-se e foi até a janela. Olhei com espanto. Jamais imaginaria ser você aquele a acender sozinho um cigarro em plena terça-feira. De imediato lembrei de um verso do Fernando Pessoa que dizia “abre tôdas as portas e que o vento varra a idéia; que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões”. Tu não eras Fernando Pessoa. E eu não era um leitor apaixonado descobrindo o amor através de palavras doces escritas para desconhecidos há muito perecidos. Enquanto fumavas quieto, pensei em como tanta gente era pra nós poesia, versos vazios mais ocupados com a simetria e beleza das palavras que com o seu real significado (ainda que existisse apenas nos limites do que imaginava o seu poeta-criador).

Éramos agora muito diferentes, notei com tristeza enquanto o sol baixava no céu e pavimentava o caminho para a noite que caía pesada sobre nós. Eu dizia “igualdade” e tu me respondia “força”. Eu dizia “liberdade” e tu me respondia “ordem”. Eu dizia “progresso” e tu me respondia com mais daquele silêncio ferino. Já não podia mais confiar no poder desse sentimento ilusório, frágil, mas que nos fizeram crer ser o sentido da vida desde que respiramos pela primeira vez, desde quando ainda não sabíamos distinguir nosso próprio “eu” do mundo que nos cercava; desde o dia em que ainda não havíamos migrado do caos ao cosmos. Sim, éramos de fato muito diferentes, tanto que já nem reconhecíamos um ao outro, ainda que estivéssemos diante de um espelho. Era, como tantos outros, um prazer efêmero, desejavelmente descartável, ilusoriamente necessário e incontestavelmente maligno. Como tantos outros, chegava e partia como o brilho inconstante de um vagalume à meia-noite. Um brilho que não ameaçava a escuridão da madrugada e que apenas existia para nos lembrar da nossa insignificância diante da natureza, que preexistia ao nosso ego, aos nossos credos e aos nossos valores. Assim, aquele final conhecido já batia à minha porta com as primeiras luzes da manhã. Iria embora novamente, dessa vez para nunca mais voltar. E esse era um pensamento renovador, até mesmo encorajador. Iria embora, mas o espelho em que nos encontramos permaneceria enquanto eu ainda estivesse ali. E todo o sofrimento resultante desta fuga seria, ao contrário do que sempre fora, um sentimento bem vindo, enriquecedor. Seria como tatear de olhos fechados as próprias paredes do samsara e mesmo na escuridão tudo ficaria mais claro. Não haveria mais poesia, apenas palavras certas, escritas por aqueles que de fato diziam verdades, ainda que fossem feias aos olhos dos homens comuns. E os incautos seguiriam recitando versos diante do espelho, acreditando que um vagalume, por mais brilhante que fosse, um dia iria trazer-lhes um brilho que desafiasse sua própria madrugada. De longe eu apenas observaria. E sentiria pena.

Atenciosamente,

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