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A Pílula Indesejada – Mohand Gomes Araújo

by em 22/08/2014

Em casa, finalmente só, Zaíra tinha esse encontro marcado desde cedo. Sair de casa era um desafio em si. Ora! É frustrante ver cabeças baixas, olhos vidrados, e eventualmente sorrisos incógnitos. As cabeças pareciam pedir um grito, um susto, talvez um bom empurrão. Daí se manifeste algo, ira, espanto, talvez indignação. Os olhos vidrados faziam ela se sentir menor, desinteressante, transparente. Vez por outra quando lhe fitavam, essa transparência ficava óbvia: não era vista.

E os sorrisos? Para ela era efeito colateral de uma “terapia alopática contemporânea”, assim nomeou. Eis a profilaxia: Abre-se uma tela, leem-se algumas frases, visualiza-se uma imagem, talvez um gif, e em segundos uma alegria efêmera lhes atravessa o rosto, o que em segundos se esvai. Ministrar em doses abundantes, proporcionais a dormência emocional.

Nesse dia em questão houve algo diferente.

Havia passado horas em discussões sobre o quadro atual, o que mais era um convite para um breve fim a sua vida do que algo mais animador.

Saúde? Filas e mais filas, corredores lotados, e o blablabla conhecido.

Educação? “Os professores deveriam ser mais valorizados”, e logo em seguida, “Deus me livre de meu filho ser professor!”.

Política? Já temos o velho clichê: Corja!

Diante de tão grande confusão, em que nada é preto no branco, só uma coisa é clara, a confusão.Esse tempo de suposto engajamento político social não simboliza nada de distinto, entretanto, algo genuíno aconteceu.

Ela não aguardava nada além de sorrisos pontuais em sua insossa rotina.unnamedContudo, no metrô havia uma jovem moça. Por certo tinha a sua idade, portava uma vestimenta similar a sua, não fosse por alguns apetrechos mais informais e por uma bolsa de uma marca desconhecida.

A moça trazia um filete escorrendo pelas maçãs do rosto, via-se em sua expressão um grito silencioso que, se audível, ensurdeceria a todos com sua tristeza dilacerante. A triste moça foi, inesperadamente, notada por Zaíra, que logo se viu absorta em indagações que antes não transitavam por sua mente.

Sem se perceber, não estava mais ministrando o seu remédio de emoções compartilhadas por um toque, estava ali, já há alguns minutos, investigando cada soluço manifestado pela moça. Emergiram autocríticas, palavras severas consigo mesma, por encarar as lágrimas uma a uma, e até certo encorajamento para sentar-se ao lado da infelicidade e oferecer-lhe um ombro, mesmo que desconhecido.

Lembrou-se de sua doutrinação religiosa, rememorou sua ética profissional, vasculhou entre as sabedorias da família que pululavam em sua mente, porém nenhuma resposta fisgou. Não há um item no seu Estatuto profissional, nem capítulo de livro sagrado, nem imperativo educacional que correspondesse à tamanha estupefação.

Nada fez.

E agora, entrando em sua casa de poucos cômodos, ainda carregando aquele incômodo, pôde notar que uma dose cavalar de emoção estava em vias de ser absorvida, estava impregnada em sua alma aquela impressão.

Pouco pôde fazer, há muito a ser processado, sobretudo quanto ao desconhecido que aflige a desconhecida. Queria saber sobre tudo, e ao mesmo tempo saber sobre nada. No futuro do pretérito está o desejo do que já não mais é possível. Ali, a contragosto seu, do sistema e de sua educação, nasceu outra mulher.

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