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Relâmpago em céu claro – Renato Miguel

by em 07/08/2014

Despertar era a parte mais difícil. A tênue luz do sol filtrada pelas cortinas feria os olhos e a cabeça pesava feito um saco de cimento. No estômago avultava um mal-estar, como se estivesse preenchido por um bolo de algodão. Os distantes sons de carros e de obras na vizinhança martelavam sua mente com a sanha de um homem cruel. Finalmente conseguiu levantar o tronco, que apoiou sobre um cotovelo. Os dígitos vermelhos do relógio ao lado da cama apontavam dez da manhã. Levantou-se e foi ao banheiro para lavar o rosto. Mantinha um aspecto sofrido, os olhos inchados e os lábios ressecados. Precisava de um copo d’água, calculou com a mente ainda meio enevoada. Pés ligeiramente trêmulos levaram-no à cozinha, onde se hidratou e umedeceu a garganta. Jogou o corpo ainda acabado sobre uma poltrona na sala e, naquele momento, percebeu que este seria o resumo do seu dia. Uma viagem silenciosa e preguiçosa ao interior da própria cabeça, enquanto o corpo, exausto, celebrava sua fraqueza através da imobilidade quase absoluta. Não era ruim, pensou. Nessas ocasiões forçava-se a meditar. Não apenas sobre o dia anterior, mas sobre tudo aquilo que passava diante de seus olhos sempre como uma película, mas que por conta da atribulação da rotina acabava frequentemente relegando a um plano inferior. Pensou em tudo o que havia dito. Nas horas certas e erradas. E tudo o que deixara de dizer. Pensou em tudo que tinha feito e pensou, sobretudo, sobre o que gostaria de ter feito de outras formas. Notou que suas obrigações assomavam com mais força do que gostaria de admitir e que sua vida rumava em crescente velocidade a um ponto em que seus prazeres eram cada vez mais culpados pelos pequenos fracassos do dia a dia. Constatou, não sem certa amargura, que se foi o tempo em que ser um hedonista sincero era uma opção aceitável em sua jornada pessoal. Também com amargura, pensou nos velhos amigos que hoje conversava com uma cordialidade firme, porém distante. Era curioso como a melancolia se mostrava uma parceira contumaz da reflexão. Mas isso, de certa forma, era até desejável. A euforia frequentemente o cegava, enquanto o coração pesado geralmente tornava as coisas mais claras. Era estranha, essa consciência, mas não deixava de ser bela, como um relâmpago em céu limpo. Seguiu deitado, não notando as horas passarem lentamente do lado de fora. Mas era irrelevante, porque, hoje, o tempo que contava corria por dentro.

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