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A luz que vem de cima – Renato Miguel

by em 27/01/2014

O display do relógio digital à minha frente e à direita marca três horas da tarde. Na verdade são duas horas, considerando o horário de verão. À minha frente repousa um livro aberto, entre os cotovelos frexionados e apoiados sobre a mesa. Já não lembro em qual página parei, pois já faz algum tempo que não dou atenção à leitura. Concentro-me num zumbido que vai e vem próximo a mim. Às vezes vem da esquerda, outras, da direita. Hora vem de acima, depois um pouco abaixo. As moscas são as companheiras fiéis de um dia de calor, especialmente quando falta energia elétrica. Não lembro quando passei a me concentrar no zumbido, mas acho que o fiz na tentativa de tolerá-lo. Certo estava, pois agora já não me incomoda. Muito ao contrário, exerce agora sobre mim um estranho efeito analgésico e já quase não sinto mais o calor. Aliás, lembro do calor apenas por uma gota de suor que escorre por minha nuca e pára no ombro. Outra gota desliza pela minha testa e vai dar na ponta do meu nariz. Despenca e cai sobre a página do livro aberto, formando uma mancha escura que me parece bem similar ao mapa da Groelândia. Lê-se, ali, na enrugada mancha úmida, a palavra sono. É mesmo essa a palavra ou estou a imaginar coisas? Sorri ao pensar nos caminhos surreais que pode percorrer uma mente entorpecida pelo marasmo. Apoio a cabeça nos braços dobrados sobre a mesa e sinto o calor irradiando através dos olhos e das orelhas. Fecho os olhos bem apertados e tudo o que consigo ver é o sol. Abaixo dele há um grande prédio. E lá no meio há um grande pátio, também tomado pelo sol. Vou andando e ela vem em minha direção. Por trás dos óculos escuros seus olhos ocultos fazem de conta que não buscam os meus, tão devassados e sinceros sob o claro e escaldante céu de novembro. Desperto num rompante. O ventilador, que de repente gira furioso, refresca e evapora as milhares de gotículas de suor que florescem no meu rosto. A energia voltou, que estranho, pensei. Já havia me habituado àquele mundo úmido e quieto. Sentia falta do zumbido visitando meus ouvidos, embotando a mente e causando aquela bem vinda hipnose. Fecho os livros, cato os óculos e vou em direção à rua, ávido por caminhar sob a vigília do sol.

27.01.2014

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