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“Hoje é dia de branco” – Renato T. de Miguel

by em 28/09/2013

O sol e o calor, potencializado pelo alumínio e pela borracha que estofava os assentos do ônibus, eram os componentes clássicos de mais um dia de trabalho na cidade. O transporte público é a via necessária à persecução do pão diário e nele misturam-se todos os tipos de pessoas. É a miscigenação dentro de um povo miscigenado, verdadeira e plena comunhão de vida. Mas essas são considerações por demais profundas, não muito adequadas a um dia de comum labor. A bem da verdade é que os pensamentos, ali, mais certamente orbitavam em torno do calor, do ligeiro e insuficiente café da manhã e do provável atraso diante da necessidade de tomar duas conduções até o serviço. Os meus, por certo, eram dirigidos ao apertado espaço que me sobrava no corredor, pequeno demais para que eu me movesse ou tirasse um livro de dentro da mochila. Nesse momento, o ônibus parou em um ponto e dois rapazes entraram. Um deles, que levava um meio caixote pendurado ao pescoço, cheio de guloseimas, foi para o fundo do carro, enquanto o outro permaneceu próximo à roleta, pediu atenção e passou a falar em voz alta. Anunciou que vendiam doces e que o dinheiro arrecadado seria destinado a uma instituição voltada ao tratamento de crianças dependentes do uso de crack. Falou das qualidades da instituição e da transformação que operara em si mesmo. Olhei em volta, meio que institivamente, e notei que poucos prestavam alguma atenção ao rapaz, ou fingiam não prestar. Olhavam para os lados, encarando a paisagem urbana que passava veloz lá fora. Um sujeito de idade ao meu lado disse-me ter certeza que o homem usaria o dinheiro para fumar maconha. Outros também o olhavam desconfiado. E porque não deveriam fazê-lo? O moleque era preto, pobre, estava mal vestido e os pés estavam sujos. Devia arrumar um trabalho decente, era isso que tinha que fazer. Não daríamos nosso suado dinheiro, nem mesmo cinco reais, para comprar um chaveiro em formato de uma pequena caravela. Mais depressa pagaríamos oito reais em uma garrafa de cerveja, que era refrescante e se adequava bem ao calor. E que se danem as crianças dependentes de crack e os demais drogados dessa cidade. Cada um é refém de suas escolhas. A vida é um duelo multitudinário em que a cada um é dado um escudo chanfrado e uma espada cega. Sem dúvida a maioria ali acreditava nisso, ainda que não nestes termos. Ainda que não conscientemente. Perguntei a mim mesmo no que eu acreditava. Se éramos também responsáveis por aquelas crianças. Por todos os vícios que alimentávamos e que fingíamos não enxergar. Não tinha maturidade pra decidir, concluí. Comprei um chaveiro em forma de barco e um pacote de chicletes, por via das dúvidas. Talvez não tenha salvado criança alguma, tampouco recuperado algum cidadão corrompido, mas senti em mim mesmo um reforço no espírito de cidadania; abracei um pouco mais o ônus da vida em sociedade. Às vezes o inseguro altruísmo travestido de esforço humanitário é a única solução digna. Desci do ônibus, mas ainda fazia muito calor.

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