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Crônica sobre Deus – Renato Miguel

by em 15/09/2013

Há um ditado que diz que, ao chegar ao fim, tendemos a pensar no começo. Não está longe de ser verdade, pensou o velho, do canto do seu sobrado em Vila Isabel. Chamavam-no velho Guerra. Do alto dos seus oitenta e quatro anos, enxergava claramente o fim da linha; mais do que enxergar, sentia-o em cada osso e músculo do corpo; sentia-o no andar vagaroso, na fala arrastada e na visão embotada. Meditar sobre o começo era um exercício de auto-punição, um desenvolvimento forçado de auto-crítica. Seu pai certa vez lhe disse que a humildade era a qualidade primeira de quem é sábio. Nunca ligou pra isso, porque o próprio pai nada tinha de sábio ou humilde, posto que dizia essas palavras enquanto oleava os cabelos e ajustava a gravata ao terno branco, apenas para sair rua a fora e voltar, dias depois, cheirando a todas a mulheres das quais se gabava de ter conquistado. De seu pai, no entanto, herdou apenas o culto a si mesmo. Não foi agraciado com a vivacidade do espírito, tampouco com o talento para o amor. Mas isso velho Guerra não lamentava. Nunca teve vontade de ser a imagem do pai. Saíra mais à mãe e se orgulhava disso. Era mulher trabalhadora e muito séria, não se apegava às pessoas, nunca a viu chorando, nem mesmo quando o pai vestiu o terno branco pela última vez e nunca mais retornou. Mas não se entristecia por nada que seus pais tenham lhe feito; passara a reprovar, isto sim, o que fizera da própria vida. O que tinha obrado movido por orgulho, hoje parecia vazio, uma bolha no passado, e o que fez por ser mesquinho, sovina e muitas vezes cruel, tornou sua alma um salão cinzento. Agora pensava, não sem certa amargura, que arrependimento era uma manifestação de humildade, embora não se sentisse mais sábio por isso. Na verdade, sentia um desejo quase infantil de ser visto, entregar seu sofrimento ao mundo como pagamento por tudo o que havia sido. Mas qual seria a utilidade? Não há lágrimas mais sinceras que aquelas que ninguém vê.

Agora, olhava pra trás e via uma estrada deserta: cultuara a própria imagem, agora não tinha cabelos e na boca já lhe faltavam os dentes; fora mesquinho, porque se lhe tomassem o direito, diria aos juízes: “nobres julgadores, venho perante vós requerer apenas o que por direito é meu, e muito embora, para tanto, possa faltar-me o saber das letras e das leis, minha razão, ao revés, segue inabalada”; mas a um igual bradaria “dê-me o que é meu ou te mato tão depressa que não saberás o que passou”. Fora cruel, porque tantas vezes entregou seu desprezo camuflado em um sorriso fácil.

Ah, como fui vil! Há horas que não adianta explicar que um santo é, antes de tudo, um pecador. Mas Deus há de perdoar, pensava o velho Guerra. Dizem que o criador é alguém que tudo perdoa, afinal, ele é o grande inventor do perdão. Acreditar nisso era reconfortante. Passara até a crer em Deus. Não devia ser tão tarde. Comprou até uma bíblia usada e a colocou no criado mudo. Nunca chegou a ler, pois era alérgico a toda aquela poeira de livro velho, mas a deixava ali e de vez em quando olhava pra ela.
Saiu de casa para ir à Praça Barão de Drummond. No corredor, acabou esbarrando em uma senhora que morava embaixo, derrubando suas sacolas e seus tomates. Sentiu-se compelido a dar-lhe bom dia e seguir seu caminho, mas resolveu ajudá-la a recolher as frutas. Vai que Deus realmente está olhando, pensou.

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