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Não me belisque – Renato Miguel

by em 12/07/2013

Cheguei atrasado ao salão redondo, cruzei as cortinas e olhei em volta. As cadeiras estavam quase todas tomadas, mas a maioria ainda estava de pé. Conversavam, alguns aos berros. Gesticulavam efusivamente e apontavam os dedos uns aos outros. Dois moleques ao meu lado travavam frenética discussão a respeito da cor da parede. O primeiro dizia que era verde-azulada, enquanto o segundo afirmava que era azul-esverdeada. Um terceiro surgiu gritando que na verdade era marrom e cinza. Não cheguei a ver de onde partiu o primeiro soco, mas aconteceu bem no meio do salão. Em poucos segundos havia braços e pernas voando em todas as direções. Cadeiras também eram atiradas a esmo e juro que vi uma garrafa de uísque se quebrando na nuca de alguém. Achei graça, não podia ser real. Olhei pro lado e disse à baixinha de camisa xadrez que usava o cabelo preso num coque: “Ei, me belisque”. Em vez disso ela deu com a mão na minha cara; a outra foi bem nas minhas costelas – e pode ser que uma tenha se partido, porque ouvi aquele barulho que se faz quando se pisa em lenha seca. Todo o meu ar, de repente, sumiu dos pulmões, e acabei apoiando meu peso num sujeito mais próximo. Devo tê-lo desagradado, porque fui atingido em cheio por um caderno no meio do nariz. Cambaleei meia volta para o lado, a tempo de ver um garoto magrelo ser arremessado por cima das cadeiras; provavelmente mereceu, pois havia comprado um violão no mercado livre, rabiscado um samba num guardanapo e decidido que era Noel Rosa. Agora, depois de ter apanhado com um cano de ferro um pouco abaixo do queixo, realmente ficara algo parecido com o ídolo.

Acordei num lugar que achei ser um hospital, a julgar pelas pessoas de branco em volta. Andavam rápido para cá e para lá enquanto usavam toucas e máscaras brancas. Falaram algo sobre uma costela ter perfurado um pulmão. A palavra hemorragia também foi citada em algum momento. Não liguei para nada disso. Sentia sono. Dormi novamente.

Agora eu estava em pé num gramado. Um grupo de pessoas vestidas de preto estava logo à minha frente. A maioria chorava bastante. Alguns se abraçavam. Cheguei mais perto e vi que circulavam um buraco retangular cavado no chão. Por ali havia um cavalete que ostentava uma imagem grande. Era a foto de alguém. Apertei os olhos e… Aquela foto era minha! Mas que diabos era aquilo? Era o meu velório, só pude concluir. E ali estava eu. Um fantasma, quem diria! E tudo por conta de uma bagunça que eu nem mesmo causei. Peguei-me pensando sobre o motivo daquilo tudo. Logo passei, é claro, a questionar a justiça e o sentido da vida. Mas nada disso durou, pois apenas um pensamento me tomava a mente: não conseguia parar de pensar na cor daquela parede.

Fim.

2 Comentários
  1. você tá ficando bom nisso. excelente texto, lúcido, conciso, descritivo e claro.
    pena que a origem da pancadaria era a cor da parede, normalmente é algo ainda mais inútil.
    mas vem cá… será que fantasma pode ser beliscado? rs.

    • Renato T. de Miguel permalink

      Tá aí… boa pergunta rsrsrs. Esse é o desafio.

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