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A Vigília (Parte 02) – Renato Miguel

by em 16/06/2013

O estreito corredor recortado por entre a rocha seguia um caminho sinuoso, e o homem, por vezes, precisava passar de lado, em razão de alguma saliência projetada nas muralhas de pedra que assomavam a um lado e a outro. Em certo momento, num ponto em que a trilha se tornava um pouco bojuda, uma árvore enegrecida e morta crescia retorcida junto à montanha. Em um dos galhos, farrapos de um tecido tremulavam fracamente ao comando do vento suave que lambia o corredor. Marcas de sangue seco rajavam a parede logo adiante. Deduziu que alguém ferido, e em fuga, tivesse passado às pressas e perdido parte da capa nos galhos da árvore, deixando manchas de sangue ao se apoiar na parede antes de prosseguir. Rasgou uma tira do tecido, tingido num verde profundo, quase cinzento, e a amarrou em volta do braço esquerdo. Seria um bom lembrete do que aquela terra inóspita tinha a oferecer. Seguiu em frente, a atenção renovada (e redobrada) e notou que agora o corredor se alargava um pouco mais. À frente, viu que outros caminhos surgiam à direita e à esquerda e eram mais estreitos que o normal. Sentiu-se tentado a se meter por um deles, que subia por entre a rocha íngreme e grosseira; talvez desse em uma queda d’água, pensou, porque de longe, quando ainda cavalgava por terras verdes, avistou pequenas cachoeiras cuspidas das rochas encravadas na longínqua paisagem cinzenta. Logo desistiu da ideia. Olhou novamente o velho mapa desenhado em pele de cordeiro e decidiu que seguiria o caminho principal. Ele não sabia a precisão das linhas tracejadas no mapa, mas julgava que mais de um terço da trilha já tinha ficado para trás. Caminhou por mais algumas horas, antes de decidir parar em um trecho mais largo do corredor. O chão arenoso concedia algum conforto. Apoiou a bolsa em uma grande pedra recortada na parede ao lado, deitou a cabeça e adormeceu quase de imediato.

Sonhou que caminhava por uma campina elevada, num nível situado muito acima do solo, um jardim suspenso no seio da montanha. Ele seguia pelo gramado macio, pontuado aqui e ali por eucaliptos que emanavam um odor agradável. A folhagem das árvores filtrava em pequenos raios a suave luz da lua que pairava sobre o lugar. Pétalas de rosas brancas e vermelhas dançavam ao sabor da brisa, enquanto algumas repousavam no chão. Avistou, ao longe, entre fileiras simétricas de eucaliptos, uma estreita ponte de pedra que parecia ligar a campina à montanha vizinha. Foi até lá e notou, maravilhado, que em cada lado da ponte havia uma grande cachoeira. Foi então que a viu, parada na outra extremidade do exíguo piso de pedra, toda graça e delicada beleza, enfiada em um vestido azul marinho que só fazia realçar a pele branca e os cabelos tingidos de prata por força do brilho da lua, cujas mechas torcidas emolduravam o belo rosto, caindo por sobre as orelhas e os ombros – uma silhueta graciosa que em nada devia, em majestade, às montanhas ao redor. Ignorou o medo infantil de altura e partiu em direção a ela, equilibrando-se sobre a ponte abaixo. Quando se aproximou, viu que um sorriso triste lhe adornava o rosto, enquanto os longos cílios pareciam unidos pela umidade de lágrimas. Chegou perto o bastante, à distância de um beijo. Tentou tocar o rosto claro, erguendo as mãos ásperas e manchadas de terra e poeira. Tentou dizer algo, a boca se abriu, incapaz de emitir som. Todo o ar dos dos pulmões havia desaparecido, porque sentiu uma forte pressão nas costelas, que logo virou uma ardência férvida e depois uma dor aguda, pungente. Levou a mão até o ponto dolorido e sentiu a umidade quente do sangue e a frieza da lâmina enterrada ali. Olhou as mãos dela, incrédulo, e notou que também estavam sujas de sangue. Agora ela chorava copiosamente, mas não pedia perdão. O mundo parecia reduzir sua marcha, enquanto as pétalas voejavam em bizarra lentidão, ao mesmo exemplo das infinitas gotas de água que vinham das cachoeiras em uma vagarosa torrente branca. Caiu de joelhos, o rosto indo de encontro ao chão de pedra fria. Acordou sobressaltado, com a face chapada na rocha ao lado. Levou uma mão às costelas e outra ao peito. Atraídos pelo suor, o cabelo aderia à testa e a camisa ao tórax. As sombras ao redor estavam mais curtas do que deveriam – dormi demais, pensou. Mordiscou um pedaço de pão bolorento, enquanto tentava afastar uma febril onda de pensamentos sombrios. Virou um gole de água do agonizante cantil e seguiu em frente. Algumas horas depois chegou ao final do corredor. As provisões mais leves, o coração mais pesado. Os sonhos seguiam piorando. Apertou o passo em direção à saída. Precisava acabar logo com aquilo. Morrer de sede e inanição era um destino aceitável, previsível, muitas vezes preferível. Perecer pela insanidade era tudo o que precisava evitar. Daria sua vida por isso.

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