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A vigília (Parte 01) – Renato Miguel

by em 11/06/2013

As botas estavam surpreendentemente bem conservadas e ainda davam algum conforto aos pés, que lutavam para se equilibrar sobre o terreno pedregoso que serpenteava pelo caminho abaixo. Na verdade, as botas eram as únicas coisas que se mostravam razoavelmente inteiras desde que aquilo tudo começou. A capa já estava quase completamente esfarrapada, e só seguia presa aos ombros porque ainda era uma aliada útil contra os vendavais secos e gélidos que sopravam naquelas noites. O blusão de lã cinzenta era um conjunto gasto de remendos que já se tornara áspero ao toque, ao passo que a calça ostentava largos rasgões e buracos ao redor dos joelhos. Não fosse o punhal enfiado em uma bainha de couro negro ricamente trabalhado com finos arabescos de prata (que retratavam formas de sóis e estrelas e, em cima, tocando a guarda da lâmina, a forma de um rosto de mulher, com os cabelos também anelados em prata) – derradeira herança de tempos felizes – alguém que por aquelas cercanias passasse diria que aquele andarilho nada mais era que um roto mendigo que andou demais e se perdeu em terras ermas. Mas ali não havia mais ninguém e ele não era pedinte, eremita, ou nada que o valha, pois vagava por ali em causa própria e à sua legítima vontade. Tinha um objetivo claro, e ninguém que a não ser ele poderia bradar contra a nobreza da demanda.

Continuou descendo, e na mão esquerda levava um cajado, que vinha usando para firmar um caminho por entre os pedregulhos, que cediam frouxos ladeira abaixo à menor pressão dos pés. Houve um momento em que se abrigou sob uma árvore meio morta de galhos retorcidos que parecia montar guarda em frente a uma pequena e escura gruta entalhada na rocha escarpada que ladeava o vale; revirou a bolsa surrada por alguns momentos e dali retirou um naco de queijo, quase tão duro quanto as pedras que pavimentavam a descida, mordiscou-o durante breves segundos, enrolou-o de volta na tira de pano enegrecido, guardando-o na bolsa logo em seguida . Subiu o capuz, recostou-se na árvore e tentou dormir um pouco. O cansaço era enorme, mas pensamentos escuros dançavam cruelmente naquela cabeça atormentada, impedindo que a mente relaxasse e deixasse aquele mundo. A fome também não ajudava, e a sede muito menos. A água era constantemente uma preocupação, pois agora apenas metade enchia o cantil, que já começava a pender flácido da cintura. Pensou em se arrastar até a gruta, na esperança de que o sono vencesse a batalha em um lugar menos tomado pelo vento frio, mas era escura demais e não conhecia ainda muito bem aquelas terras, de modo que temia o que quer que pudesse encontrar lá. O lado de fora, a seu turno, oferecia o abrigo fornecido pela luz das estrelas e da lua. Por fim, acabou por dormir; na verdade “desmaiar” seria uma palavra mais adequada. Os sonhos passavam velozes e entrecortados e, se não eram agradáveis, ao menos não lhe feriam com a visão que se tornara recorrente nos últimos tempos. Essa visão talvez fosse a razão pela qual ele estava ali; talvez, sim, porque a missão, antes de qualquer coisa, dizia respeito a ele. A ele e a mais ninguém.

Acordou com a primeira luz difusa emanada pelo sol. O céu, como sempre, era tão cinzento quanto o chão abaixo e a espessa camada de nuvens deixava pouco a ver do astro dourado que vigiava de cima. Levantou, baixou o capuz e sacudiu a poeira que havia se agarrado à capa e às calças. Tomou um gole do cantil e continuou descendo. Notou que faltava pouco para chegar ao fim daquele vale inclinado, que terminava num corte que formava um estreito corredor entre as duas grandes rochas montanhosas que emolduravam aquele vale poeirento. Guarnecendo a entrada, mais duas pequenas árvores mortas postavam-se, uma de cada lado. Uma placa pregada em uma delas era entalhada em caracteres que ele não conhecia. Duvidava que palavras de boas vindas estivessem gravadas ali. Olhou para cima ao passar pelos galhos, notando que havia um pequeno ninho equilibrado nos ramos retorcidos. Um som vinha dali, um tímido piar, ele podia jurar. Olhou fascinado por mais alguns segundos, relutando em abandonar a rara manifestação de vida naquele ambiente estéril. Foi quando um pequeno pássaro cinzento veio planando de algum ponto a oeste, encolheu as asas e pousou no ninho. Só podia ser a mãe, porque trazia no bico a refeição dos filhotes. Deu um suspiro e seguiu em frente, ajeitando a bolsa no ombro e ajustando a fivela no cinto que prendia a adaga. Diante daquela visão encorajadora, agora seus pés moviam-se com melhor disposição, e as botas, não tão gastas assim, o impulsionavam à frente, rumo ao desconhecido.

(…)

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