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Memórias que ardem – Renato Miguel

by em 03/06/2013

Usava o atiçador para revirar o braseiro, e o fogo da lareira crepitava. Empunhava-o na mão esquerda e enquanto tentava provocar o calor do fogo de modo a aquecer toda a sala. Fazia frio, embora fosse novembro. Imaginava se a temperatura do ar teria realmente algo a ver com a estação. A fuligem saltava ao ar e tornava a baixar, voltando a subir logo em seguida. Cinzas. Poderiam ser resíduos de fotografias, cartas ou mesmo lenha carbonizada. Agora já não importava. Eram cinzas, farelos pálidos do que um dia já foram, assim como as memórias eram sombras etéreas do que foi passado. Mas cinzas iam ao lixo, ao passo que as memórias sempre voltavam para lhe assombrar. Lutava contra elas, mas lutava, sobretudo, contra si mesmo e essa era uma batalha perdida, ou uma reprise da mesma batalha, cujo final já lhe era há muito conhecido. Entendia o segredo para a fuga, devia manter a mente ocupada. Desistira dos livros, embora estivessem empilhados aos montes nas altas prateleiras que rodeavam a sala. Talvez também devessem ir ao fogo, pensou. Largou o atiçador e esquadrinhou o ambiente, à procura de algo que lhe tirasse daquele lugar de sua mente que lhe puxava, como um redemoinho numa cachoeira. Havia ali uma revista, repousando sobre o criado-mudo ao lado da grande poltrona de couro na qual estava jogado – daquelas que a cada quinzena traz um grande acervo de novidades a respeito da natureza. A capa estampava borboletas e tartarugas. Abriu na página correspondente e leu uma porção da matéria. Aprendeu ali que havia uma espécie de borboleta que se metia a beber as lágrimas dos pobres quelônios. Pensamento irônico e familiar, pensou, imediatamente evocando, a contragosto, outra torrente de memórias do tipo que tentava desesperadamente se esquivar. Via em sua mente, agora, os velhos festejos. Lindas borboletas dançavam pelo salão. Nas mãos levavam taças e copos, porque bebiam vinho, mas o que queriam mesmo eram as lágrimas. Estas, no entanto, se contentariam com as de qualquer animal.

Aquilo já era demais, pensou ele. Estava enlouquecendo, era certo. Fechou a revista e a atirou também ao fogo. Mais uma pequena memória que virava cinza. Mais tarde a reviraria com a pá e o atiçador, e o processo teria início outra vez: a fuga, a luta perdida, a memória carbonizada que reviveria como uma fênix assim que olhasse em volta em busca do que se ocupar.

Talvez no fundo esse velho sentisse pena de si mesmo. Nada mais lhe estimava, nem a grande lareira, ou a invejável coleção de livros, tampouco os criados e os móveis de pesada madeira que preenchiam a mansão que lhe dava abrigo. Sentia-se como um brinquedo quebrado em um mundo de adultos. Talvez esse destino lhe fosse merecido, por toda a dor que também causara. E talvez todas as lágrimas vertidas tenham traçado um caminho justo pelo velho rosto marcado por profundas linhas de expressão e pela ausência peremptória de sorrisos; e talvez todas as bordoadas que levara tenham sido obra de um professor severo, porém honrado. Mas essa verdade ele não enxergaria, pois a ele faltava a sabedoria de um velho, embora de velho guardasse os anos vividos e os cabelos cinzentos. Ali ficaria, manejando a lareira, aquecendo o ambiente em pleno verão, mastigando e cuspindo memórias que ardiam, mas que desejava mais que tudo esquecer. Ficaria imerso em um ciclo de amargura que lhe levaria à loucura e, por fim, à morte: o doce e perene esquecimento.

03 de junho de 2013.

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