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Como o sol – Renato Miguel

by em 16/04/2013

Do meu canto na sala de aula eu nada observava, a não ser o livro aberto sobre a carteira. As palavras passavam em borrões que nada significavam, e a cada parágrafo lido outros três eu retornava, derrapando na leitura despretensiosa e desatenciosa. O burburinho à minha volta era uma cacofonia ininteligível, e pouca atenção também lhe dava. Foi quando ela entrou, andando rápido, mas sem pressa. O tronco vinha ereto e o queixo erguido denotava um desafio natural à própria atmosfera que a cercava. Cada passo era uma firme decisão, enquanto arrastava as sandálias rasteiras, arranhando o chão quase com desdém. À sua frente ela abraçava uma pasta cor-de-rosa, e me peguei imaginando que tipo de segredos ela guardaria. Escolheu rapidamente um lugar no fundo da sala, do lado oposto ao meu e, assim como eu, pôs-se a esperar a palestra começar. Também como eu, parecia entediada, mas, diferente de mim, não pareceu aperceber-se da presença de mais ninguém. Tudo o que fez foi aguardar. Retirou a bolsa dos ombros, pôs sobre a carteira, e a revirou um pouco à procura de algo, retirando um espelhinho de um estojo de maquiagem. Depois mirou a própria face, dando um sorriso sem mostrar os dentes e sem brilhar os olhos. Os cabelos eram uma torrente de água negra que se derramava sobre as bochechas e os embros, emoldurando o belo e agudo rosto de fada. Os olhos eram grandes e delineados por uma cuidadosa maquiagem, que lhe alongava os cílios. Castanhos, os olhos pareciam flertar com um escuro tom de verde, refletindo num brilho vívido a sala ao redor. O rosto claro parecia brilhar, embora a luz mortiça do fim da tarde nada tivesse a ver com isso. Não notei que a olhava fixamente até que, de inopino, ela retribuiu brevemente o olhar. Um grande embaraço me atingiu, feito uma rajada de vento, e por um momento o meu coração se agitou no peito, como uma mosca presa em um copo. Ela percebeu. O meio sorriso, os olhos baixos no colo e as maçãs rosadas do rosto a denunciaram. Tentei me recompor. Voltei a atenção ao livro sobre a mesa. Já havia se fechado sozinho pela tensão da brochura. Não liguei, já pouco lembrava do que havia lido. Tudo em que eu pensava era na estranheza daquela menina, nos olhos claros e cabelos escuros. Na pele branca e no sorriso mais branco que a paz. Era a paz. E era a guerra. Dali eu não sairia ileso. Recolhi minhas coisas, e corri. Fugindo em direção à segurança da timidez. Do nada fazer, pois só quem deixava as trincheiras recebia uma bala no peito e sangrava até a vida acabar. Como o sol, eu só observei. Emiti e absorvi seu calor. Ah, o que seria do homem sem o medo de se ferir. Era a sobrevivência. Nada mais importava. Fui embora com um sorriso no rosto, para nunca mais voltar.

4 Comentários
  1. Correndo o risco de soar repetitiva, belo texto e belo blog. De fato, vocês cultivam aqui o que é bom e belo. É gratificante ver que a arte ainda vive, pois não é muita gente que consegue ter a sensibilidade para perceber a importância desse tipo de trabalho, que é, antes de tudo, um prazer. permitam-me aqui uma palavra de baixo calão, prometo que será apenas uma: vocês são foda. Meus sinceros parabéns e claro, ganharam uma leitora macaense 🙂

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