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Mulher pós-fabricada – Thiago Amério

by em 01/04/2013
Eis que ela surge. Uma mulher que foi moldada e terminada em formol.
Quando velha, as coisas que ela incorporou ao seu corpo, através do dinheiro,
não morreram com ela. Ficaram como estão, não entraram em decomposição.
Mas mesmo assim, um pouco artificial, alguns amam-a.
E agora? Esperaremos uma declaração
de amor de verdade? Está saindo, em alguns minutos,
inciado pelo maior e melhor clichê.

Montagem em série

Como uma mentira,
no dia da mentira, a mulher de mentira
crescida, parece ser mentira.
 
Mentira__Bebê
Mentira__Criança
Mentira__Adolescente
Mentira__Mulher
 
(- Me tira daqui.
Grita, no formol, da morte.)
 
Nas fases dela,
somente a 1ª
é a fabricada.
 
O restante todo
é fruto do pós –
que é tudo aquilo
que o dinheiro
compra nos centros
cirúrgicos ou estéticos.
 
Quando criança já se penteia, roubando da amiguinha o creme,
para os pais ficarem deslumbrados
com o concurso de miss que
com cílios postiços a faz meretriz.
 
E já quando criança (já) diz:
– Do meu eu no espelho
tudo foi pós-moldado.
 
Contudo, o tempo passa…
a menina torna-se adolescente
e com a visita ao ortodontista
coloca o famoso aparelho de dente.
 
Com sorriso forçado e padrão
ri das outras meninas que,
por serem pobres não tem condição
(permanecendo com dentes trepados),
e começa a gozação, antigo bullying do dicionário.
 
Ela cresce aprendendo ostentar
na beleza forjada e adquirida
com o dinheiro paterno que ela não dá valor,
com o dinheiro materno que lhe compra o amor.
 
Quando as espinhas aparecem,
corre ao esteticista mais famoso
que lhe oferece um remédio milagroso,
perigoso e caro que transforma
a pele de pipoca em pele mais sedosa
que quando nela encostamos sentimos
de pronto, a única inveja
que Caetano nos conta:
a que com o toque remonta
a longevidade dos orgasmos múltiplos.
 
Um pouco mais nova, já com unhas pintadas,
expressa a vaidade e o status de mercadoria
com a escova mágica que transforma o cabelo
antes encaracolado, pesado, cheio e duro
num cabelo liso, leve, sedoso, e claro, ex-escuro.
 
Assim, permanece a vida até na hora das tatuagens,
dos piercings e, principalmente, quando de baixa autoestima,
invejando a prima, pede de aniversário o silicone,
pra fartar os seios, mostrando (às “amigas” e alguns ogros),
algo de plástico, grande e aparentemente bonito
às custas de seu próprio prazer, paulatinamente, tolhido.
 
E assim, pós-fabricada, ela segue sua vida…
e no dia 1º de Abril, trago lembranças dela,
que num molde padrão acende aquela vela
de etiqueta e modismo onde, atualmente,
ser bela é ser fruta. E, comestível e feia, só
as pobres vistas como putas.
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