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As vans – Thiago Amério

by em 10/03/2013

van pirata

Na verdade queria que as palavras marcassem vidas assim como as vans me marcaram. Aqui, não pretendo delongar  sobre questões jurídicas, mas, de certa forma, sendo o transporte coletivo algo de interesse público, pelo fato de lidar diretamente com a saúde e a vida de muitos (que de forma omissa – e por vezes socada de negligência, imprudência e imperícia – são carregados de um lugar a outro), é de suma importância que seja tratado como serviço público. Assim, haveria mais rigor e certos “acidentes” seriam, no mínimo, evitáveis.

1 – A primeira van que me marcou foi a escolar. Nela, na van dos tios – Túlio e depois Vera – , comecei a minha saga como estudante, graças aos esforços hercúleos que meus pais faziam para que me transportasse seguramente e eficientemente. Sem esse elo, tão necessário e por vezes tão despercebido, não conseguiria sequer chegar à escola, e talvez, a algum tipo de contato com a letra.

2 – A segunda van que me marcou foi a que atropelou meu avô, sujeito enfático, ímpar, companheiro e escandaloso. Lembro-me, com lágrimas nos olhos, as diversas vezes em que pegava a minha mão e encostava a sua, só para mostrar que estávamos juntos. Na mesma medida, entre inúmeros palavrões, demonstrava sua preocupação com a família querendo o melhor para todos os seus. Âncora de uma geração, buscou dar aos irmãos, mesmo provocando uma atitude cômoda e por vezes ingrata em alguns, as mesmas benefícios materiais que detinha, após uma vida de trabalho. Antes da van lhe encontrar, recordo-me do dia em que me levou à matinê, me buscando, tarde da noite, mesmo muito após do seu horário do cotidiano. Sabem o quanto pequenos momentos são importantes na nossa vida? Esse foi marcante. Antes de passar, gostaria de registrar quando eu lhe aporrinhava quando ele estava tomando umas latinhas de cerveja… ora, quanta ingenuidade a minha. Mal sabia eu que, dentro de pouco tempo, também precisaria deste certo prazer que, usado na medida do razoável, é tão salutar para equilibrarmos nossa mente, corpo e coração. Afinal, é com os amigos que bebemos e, a bebida, acaba ficando em segundo plano ante às gargalhadas e às demais sensações inerentes a uma boa companhia. Infelizmente, novo (nem próximo dos 65) e lavando a calçada, denotando sua preocupação com a limpeza (já que tinha vários cachorros – e altruisticamente cuidava-os como filhos) encontrou a segunda van. E perceba que, na qualidade de viajante propagandista da Bayer não foi seu primeiro encontro com algum veículo, mas foi seu último aqui neste plano. Daí, ele se foi. Foi de carona com a van que, antes, minha avó, professora, contribuiu para que existisse já que, entre tantos alfabetizados – como o que aqui escreve -, ela fez com que o motorista, desgovernado que o atropelou na calçada, pudesse ler e assim, “tirasse” uma carteira e uma vida.

3 – A terceira van foi outra estupidez. Esta tem nome, sobrenome e anda pela cidade de Rio das Ostras – uma cidade turística que diz que mais cresceu no Brasil nos últimos anos e,  por incrível que pareça, não tem sequer uma linha de ônibus urbano. É, parece história ou brincadeira, mas é verdade. Será que crescimento não tem relação com mobilidade urbana? Será que se cresce sem andar de um lado a outro? Além, é extremamente paradoxal  um país que quer sediar inúmeros eventos “pra inglês ver”, que não tem sequer o básico, não ter nenhuma preocupação no transporte público. Ou será que a maquiagem é proposital? É política, é pra ganhar dinheiro à custa da gente? Enfim, o fato é que, a terceira van, vale dizer, pautada em normas de assentos preferenciais para idosos que de um lado os próprios cidadãos ignoram (inclusive esquecendo que também ficarão velhos) e de outro ninguém fiscaliza ou pune quando inexistem ou são desrespeitadas, contribuiu incisivamente para que minha avó tenha fraturado o fêmur. Agora, fraturar o fêmur de uma idosa que estava tentando sentar num lugar que, por LEI (ou seja, por uma vontade coletiva e maior), é no mínimo um grande absurdo. Pra que serve uma cooperativa? Pra que serve uma LEI? Pra que serve o IBGE indicar Rio das Ostras como uma cidade que mais cresceu no Brasil e, ao mesmo tempo, a mesma, diariamente desrespeita enormemente um direito que deveria ser dever. Afinal, velhos vamos ser se um dia até lá a gente viver.

Ps. Como restrinjo às Vans, nem tocarei nas 06 horas (diga-se, muito mais do que alguns que julgam ou acusam trabalham diariamente) que esta senhora teve que esperar para vir uma ambulância da “cidade do petróleo” para a cidade “turística que mais cresce no Brasil”. Aliás, engraçado é que no Carnaval sobra ambulância para os bêbados de plantão, agora para uma trabalhadora aposentada (e por isto, injustamente, à margem e descredibilizada) que chega aos 70 (setenta) anos para ficar mais de um mês numa cama de hospital em função da “van” a prosa é diferente. A ambulância não é van. Fiorino é van. E é de Range Rover que é fácil e, só nela, que prestamos atenção. Até quando?

One Comment
  1. Ana CArvalho permalink

    perfeito primo…

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