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Pequena e improvável paz – Renato T. de Miguel

by em 10/12/2012

Havia algo de relaxante na volta pra casa. Os espaços vazios do ônibus ligeiramente decadente pareciam receber as frustrações do dia que ficara pra trás. As palavras não ditas eram abafadas pelo som moribundo da cidade já sonolenta. A cabeça dele seguia apoiada na chapa de vidro morno e empoeirado da janela, e o mundo lá fora passava em ligeiros tons alaranjados, oriundos das luzes noturnas da cidade. Tudo sugeria a paz: o rio imundo que cortava o centro, o morro que serpenteava pelo bairro pobre e ia dar em uma igreja erguida em modesta arquitetura colonial, a quadra de terra batida que durante todo o dia dera palco às partidas de futebol de uma garotada risonha e magricela; e até a lua, que embora aparentasse se apiedar daquela terra sofrida, surgia quase como uma mãe zelosa, ainda que entristecida por tudo o que via diariamente. Tudo remetia à paz – uma paz que ele queria – e era fundamental que assim fosse, pois era noite e a ele só restava aguardar por aquela pequena e improvável porção de catarse que vez ou outra surgia com a escuridão e o silêncio.

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