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Verde – Renato T. Miguel

by em 06/10/2012

Há épocas em que nem a primavera se salva. E nesses dias, há dias em que o cinza desafia o verde, buscando aquele espaço ferozmente batalhado durante o ano que já quase passou. Hoje foi um desses dias. Um dia bom de se sentar quieto à sombra e observar. Escolhi uma praça em que a primavera tentava se estabelecer. Feita de um cinza decadente formado por milhares de pedras portuguesas e bancos revestidos de uma lascada tinta branca que já revelava o desgaste da madeira. Aqui e ali espalhavam-se alguns postes negros de latão, com pequenas lâmpadas em cima que tentavam emular um estilo vitoriano. A água do laguinho era turva por força da imundice, e sobre ela arqueava-se a ponte metálica que reproduzia as cores da bandeira da cidade. O mais impressionante, no entanto, eram as árvores: mesmo no seio da primavera, ostentavam galhos nus e retorcidos, e as folhas mortas no chão voejavam ao comando da brisa; algumas iam beijar a água do lago, outras, mais ousadas, iam ao encontro da estrada logo abaixo. A primavera, no entanto, era valente, e tentava sobreviver à decadência que ali se instalava e, por isso, fez brotar pétalas amarelas nas extremidades de algumas das árvores. Era uma guerra bonita de se ver. A decadência daquela cidade se recusava a ir embora. A brisa parecia dizer que era tempo de mudança, e que as flores deviam crescer e prosperar no corpo dos galhos e ramos mortos, pois assim devia ser o mundo, cada um com a seu tempo sob o sol e que o período do cinza se fora; parecia dizer que deviam partir sem olhar pra trás, que o verde iria governar e, se fosse correto, daria lugar ao dourado do verão quando o tempo chegasse. E quando chegasse, a praça estaria ali para recebê-lo; com seus galhos, árvores, folhas e o lago; a estrada abaixo e a campina acima. E eu logo ali, sentado à sombra, observando, imaginando, escrevendo sobre coisas mais ou menos importantes que a infinita guerra travada entre o verde e o cinza.

One Comment
  1. aarteprocurandoserreposta permalink

    Que o verde seja a esperança e o cinza o excedente podre da vida.

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