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Vermelho – Renato T. de Miguel

by em 18/09/2012

O sol branco ia acima e eu seguia logo abaixo; e parte do mundo ainda nem havia despertado. Eu ia subindo a ladeira enquanto os pequenos pássaros saudavam o começo de domingo. Subi o máximo que conseguia só pra avistar o mar, que me aguardava ao longe e se confundia com um céu levemente esbranquiçado num gradiente divino que ainda brincava com um tom de vermelho. Não é tão longa a caminhada se você quiser chegar à orla, sobretudo às portas da manhã, quando a brisa é suave e o aroma é o frio anélito das árvores, geralmente impregnado de terra úmida. Apenas pelo olfato já é possível delinear mentalmente o caminho: parte-se do barro (um odor que quase possui sabor), passando por algum capim sarapintado daquelas gotas de orvalho que evaporam à primeira luz do dia e chegando, finalmente, ao sal frio e úmido que envolve o mar. E é no mar que a vida começa: as primeiras pessoas praticando cooper, pedalando pela ciclovia ou simplesmente caminhando, acompanhadas ou não dos cachorros. A elas soma-se o cheiro de café que foge das casas com a velocidade de um cometa e parece resistir ao vento com a teimosia da própria areia. E por falar na areia, um ser inocente poderia até imaginar serem as pequenas dunas um amontoado interminável de tostões de ouro, ao passo as minúsculas ondas, que sempre exibem um infinito tremeluzir sob o sol, seriam diamantes cravejados numa grande colcha azul de lã. Era nesse cenário que um homem deveria viver; e só a ele deveria declarar seu amor, pois era ali que começava a vida e a verdadeira justiça do mundo seria ali ela terminar. E eu andei sob o sol em direção ao mar; vi jovens e velhos respirarem a maresia com grande satisfação estampada nas linhas do rosto; vi as milhares de pegadas e senti a segurança de quem nunca estaria só enquanto houvesse irmãos que andassem sobre aquela areia e sob aquele céu; cruzei com ela sem saber seu nome e tirei dela o esboço de um sorriso, que me mordeu como um leve beliscão na base da espinha: caminhos opostos, destinos iguais. E mesmo que nesse dia eu não tivesse nenhuma música, eu podia jurar que ouvia o soar de um sino… hoje já era o bastante. Rumei o caminho de casa enquanto um velho rádio na padaria cantarolava: Trago nesses pés o vento / pra te carregar daqui / Mas você sorri desse jeito / E eu que já perdi a hora e o lugar… Aceito.

2 Comentários
  1. Carla Guedes permalink

    Fala Renato! Trilha boa demais pra ler teu texto… Ele até saltou pelo ar, e te vi caminhando num tape em video8… Linda cadência.
    Sabe que até me deu comichão de realimentar o blog, de repor arte? Viva a resistência! Abraços

  2. Renato T. de Miguel permalink

    Fala, Carla! Que bom que gostou da trilha. Escrevi imaginando uma métrica que encaixasse nessa música heheheheh. Vamos voltar a escrever, também andei meio parado, mas às vezes as ideias brotam novamente.

    Vamos lá 😉

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