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Saudade alheia – Renato T. de Miguel

by em 06/09/2012

O relógio digital no fim do estreito corredor marcava 23h04 e 22°C, temperatura que estimulava a letargia, ainda mais no escuro e sacolejante interior do grande ônibus de viagem. Minha cabeça estava meio apoiada na espessa chapa de vidro da janela e os olhos estavam fechados em tributo ao longo, longo dia que eu acabara de deixar para trás. Nos meus ouvidos ressoava Street of Dreams através dos fones. Na perna direita repousava a obra de Mary Shelley, cuja tentativa de leitura não resistira ao labor.

O veículo estava agora parado, sob o abrigo do pequeno terminal rodoviário de Casimiro de Abreu. Se os meus olhos estivessem abertos naquele momento, eu teria visto uma jovem moça descer do ônibus e retirar uma mala de rodas do bagageiro, mas o que eu vi ao erguer as pálpebras foi uma menininha de cerca de quatro anos de idade descer as pequenas escadas do ônibus e atravessar a porta automática. A mãe ainda se ocupava da bagagem, mas a menina parecia não se importar, pois agitava uma bandeirinha na mão direita e corria para o meio do salão, em direção às lanchonetes já fechadas. Ali, esperava um grupo de pessoas sorridentes, e um menino de aproximadamente treze anos de idade veio contente em direção à garotinha, abraçou-a e girou-a no ar. Ambos literalmente pulavam de alegria, alegria essa que parecia insuflar ainda mais prazer aos adultos que observavam a cena. Um jovem homem apoiado em uma bengala foi auxiliar a moça com as malas, a título de saudação.

Tudo isso eu observava de longe, e os fones ainda funcionavam, mas eu não mais poderia dizer quem cantava o quê. Minha mente se concentrava naquele grupo, destacado no vazio daquela rodoviária deserta. A saudade ditava o ritmo do encontro e as crianças literalmente pulavam enquanto os adultos se cumprimentavam. Mesmo sem poder ouvir nada, mesmo sem conhecer aquelas pessoas, sabia exatamente o que sucedia, pois a saudade me parecia uma linguagem universal, um latim vivo dos velhos amigos ou mesmo um texto em braile pra um coração cego que dizia “eu te amo”.

Estranhamente, agora eu me encontrava plenamente desperto, e enquanto o ônibus partia, senti uma ligeira vontade de acenar para aquele grupo de desconhecidos. Lembrei que não precisava fazêl-lo, visto que ao se embrenhar noite adentro e estrada afora, aquele grande veículo, escuro, frio e chacoalhante, me levava em direção à minha própria e insone saudade.

Macaé, 06 de setembro de 2012

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