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Um outro bem de não sonhar – Renato T. de miguel

by em 25/07/2012

Você toma as mãos dela nas suas e percebe que nunca se cansa de imaginar como elas estão sempre mornas, ainda que a noite insista em lhe recordar que é inverno. Um delicado anel cinge um dos pequenos dedos, perfazendo uma sugestão distante do que poderia ser o futuro. Os olhos dela chamam os seus, e neles nasce um sorriso que se espalha pelos lábios e bochechas do rosto claro e agudo. Você larga as mãos dela, porque agora irá segurar-lhe o rosto, e os lábios se tocam uma vez. Duas vezes. E depois outra. É a hora da despedida. O seu voo foi anunciado e você não pode se atrasar. Alguns dias à frente se encontrarão novamente, você sabe, mas mesmo assim ‘o até logo’ é doloroso, como uma agulha aquecida pelo fogo. Você segue pelo saguão e sabe que ela o observa, de longe.

Seus olhos se abrem relutantemente à ainda tênue luz da manhã. O celular embaixo do travesseiro lhe diz que ainda são cinco horas, mas essa informação é logo esquecida, porque o sonho estranho aconteceu novamente. A lembrança é suave, mas mesmo assim os lençois estão úmidos e derem à pele, enquanto os cabelos firmam-se à testa. Três vezes em três dias lhe fazem acreditar que isso tem algo a lhe dizer. Você fecha os olhos novamente e tenta retornar àquele cenário. Quer saber o que acontece, pois existe algo novo naquilo. Algo vivo e elétrico. Algo perigoso. Quer entender de onde vem o perigo.

Você fracassa, já que agora os sonhos são meros recortes psicodélicos de pensamentos ou ocasiões desimportantes, então você abre os olhos e o celular lhe diz que são nove horas. Depois levanta e vai pra vida imaginando qual o sentido de ter um sonho daqueles. E quando a encontra mais tarde, com aquele sorriso branco e mãos delicadas, acha que talvez a resposta esteja ali, longe dos mundos oníricos, porque você sente o perigo real, a eletricidade doce e o calor que começa no estômago e incendeia o corpo todo, e então sabe, finalmente, que deseja nunca mais sonhar.

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