Skip to content

Um dia e mil noites no fim do mundo – Renato T. de Miguel

by em 10/07/2012

Eram três horas depois do nascer do sol e eu desejava que ele se deitasse novamente – a alvorada traz esse anseio quando se vive às bordas do fim do mundo. O odiado som arranhado e levemente metálico produzido pelos galos todas as manhãs anunciava que aquele sonho, no qual eu me encontrava longe dali, deveria terminar e a vida deveria continuar sob o manto daquele marasmo absolutamente incompatível com a energia de criança, cruelmente acorrentada dentro de mim.

A caneca de achocolatado e o pãozinho com manteiga levavam o gosto do desânimo, ao passo que a frieza da porcelana e do retângulo de vidro sobre a pequena mesa da cozinha representava a sensação geral daquelas manhãs gélidas e opacas que não guardavam relação alguma com o sol escaldante do lado de fora, sol este que nunca era desafiado pelo vento, pois todas as folhas de todas as árvores eram imóveis no fim do mundo.

Não era ruim (na verdade era um dos mais aprazíveis momentos do dia) o trajeto em direção à escola sobre a pequena bicicleta que ia sacolejando por sobre o solo acidentado de barro vermelho que cobria todos os cantos da minúscula e odiada cidade (e é claro que era odiada, eis que estava localizada no fim do mundo, e ninguém gosta de viver no fim de todas as coisas, ainda mais se já tivesse vivido no começo ou mesmo no centro de algum lugar).

Na escola, a maior lição que eu poderia aprender era a incalculável distância a que eu me punha do verdadeiro lar, aquele pelo qual o meu coração de criança berrava todas as manhãs, tardes e noites. E por falar em noites, eram tão longas que soavam como mil delas. Cada segundo na quietude noturna do fim do mundo parecia responsável pela existência de uma estrela no céu. O jantar era o marco que nos dizia que mais um dia havia terminado, o que não era consolo algum, pois o dia seguinte estaria lá para nos saudar com toda o seu marasmo desprovido de vento ou brisa.

Um dia, é claro, como é o direito de toda criança, o vento acordou, a alvorava finalmente brilhou da forma que lhe era adequada e as noites finalmente pareciam apenas um doce repouso. Mas ao fim do mundo não se deve creditar essa benção, senão pelo fato de ter ficado para trás, na memória e no papel. E embora se possa admitir que nem tudo foi perdido naquela curta passagem pelo fim de todas as coisas, a ele dou apenas o meu adeus, frio e distante como eram aquelas manhães, e interminável como aquelas noites que tinham sabor de mil.

Macaé, 10 de julho de 2012

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: