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A Pelada – Marco Di Spirito

by em 06/07/2012

Devemos esclarecer, de início, que esta crônica provavelmente não
agradará ao leitor brasileiro, porque não trata de mulher despida ou
de jogo de futebol. Cuida-se, sim, de um problema científico, e talvez
por isso a maioria dos brasileiros desistirá de seguir na leitura a
partir deste parágrafo. Afinal, segundo a cultura de nosso país
ciência é algo que não leva ninguém a lugar nenhum.

Feito esse esclarecimento inicial, para que não se diga que o título
consiste em “propaganda enganosa”, vamos ao triste fato, objeto de
nossas preocupações, ocorrido com o Dr. Tobias.

Advogado atarefado, Tobias não dispõe de tempo para nada e, por isso,
julga não ser possível eleger um barbeiro de sua predileção. Sempre
que percebe que a cabeleira atingiu o ponto do ridículo, ele ingressa
na primeira barbearia disponível, sem considerar qual o seu aspecto,
onde se encontra situado o estabelecimento ou o valor cobrado pelo
serviço. O causídico acredita que este proceder poupa-lhe tempo com
deslocamentos, haja vista que barbeiros existem em qualquer local.

Certa feita, a fim de atender a determinado cliente, que buscava
consultoria sobre fusão entre portentosas sociedades empresárias, o
Dr. Tobias dirigiu-se ao local da reunião, situado em bairro que até
então desconhecia. Antes de descer do automóvel, todavia, notou, pelo
retrovisor, que seu cabelo atingira aquele ponto de arrancar risos de
soslaio.

Já defronte ao local aprazado, identificou que havia se esquecido de
voltar uma hora no relógio, em razão do horário de verão encerrado no
dia anterior. Assim, com a folga de horário recém-descoberta,
deliberou por cortar o cabelo. Foi informado sobre o salão do Toninho,
situado há alguns quarteirões acima.

– Toninho Tuberculoso – emendou o transeunte, não sem levar uma
cotovelada de sua companheira, ante a adjetivação dispensável.
– Tuberculoso?
Na verdade esse é um apelido que lhe deram por causa de suas tosses,
provavelmente ocasionadas pelo hábito do cigarro – explicou a
companheira que desferira o cutucão, um tanto envergonhada.

A eventual doença do barbeiro não foi considerada pelo Dr. Tobias,
tampouco o hábito do cigarro, que geralmente impregna o usuário de
repugnante odor. Submeteu-se, pois, ao corte, sob as frequentes
interrupções do barbeiro Toninho, que nesses intervalos virava o rosto
e dava vazão a tosses longas e sonoras.

Durante a reunião, não obstante o cabelo cortado, Tobias percebeu
olhares direcionados para a sua cabeça, seguidas de sorrisos contidos,
aqueles que tanto queria evitar. De regresso ao lar, constatou que lhe
fora retirada acosteleta esquerda, a contrastar com a discreta
costeleta direita, que deveria ter sido reproduzida em simetria do
outro lado, conforme solicitado.

Num primeiro momento, o advogado pensou em aparar a costeleta direita,
mas sofria em pensar que deveria abrir outro horário em sua difícil
agenda para comparecer novamente numa barbearia. Pensou, então, que
deveria acompanhar o crescimento da costeleta arrancada, enquanto não
surgia a oportunidade combinada de tempo e local para cortar a outra.
Dessa forma, o fato que ocorresseem primeiro lugar solucionaria o
problema: ou a costeleta esquerda cresceria ou, se surgisse o ensejo,
retiraria a direita. E assim resolveu, satisfazendo-se intimamente, de
modo a afastar qualquer inquietação.

Seguiu acompanhando, durante dias, o crescimento dos cabelos do lado
esquerdo, mas para seu espanto nenhum fiozinho despontou. Tornou-se
deveras preocupado quando constatou que a costeleta esquerda
continuava absolutamente lisa, mesmo depois de decorridos dois meses
após o relatado incidente.

O transcurso de tão considerável tempo suscitou no Dr. Tobias o
pensamento de que poderia ter contraído tuberculose do barbeiro
Toninho o qual, além de incompetente, também seria, de fato, doente.
Seria uma espécie de tuberculose localizada, que impediria o
crescimento de sua costeleta? Teria ele que viver eternamente sem as
costeletas que tanto estimava? Será que esta doença se espalharia por
todo o seu couro cabeludo, dando origem a inusitada espécie de
calvície?

Reuniu forças e, finalmente, resolveu abrir-se com alguém. Procurou
seu amigo Ariosvaldo que, após examinar a região, diagnosticou:

– É pelada!
– Pelada? O que é isso?
– Pelada, ora, nunca ouviu falar? É aquela doença que se alastra na
pele e faz cair os cabelos.
– Nunca ouvi falar nisso…
– Vai me dizer que você nunca viu um cachorro com pelada?
– E tem cura? Meu cabelo poderá crescer de novo?
– Bem, isso já vai além dos meus conhecimentos – disse Ariosvaldo com
tom de autoridade.
– Pois bem, vou procurar um dermatologista – lamentou Tobias,
angustiado porque teria que reservar mais um espaço de tempo para
consultar-se com um médico.

E, antes de agendar a consulta médica, foi recolhendo as mais diversas
opiniões acerca do seu problema. Seu pai opinou por uma rara micose. A
empregada de sua mãe disse que se tratava de cobreiro, provavelmente
causado por uma lagartixa que teria passado por seu rosto durante o
sono noturno. Seu colega de trabalho sugeriu a lepra e desde esse dia
evitou qualquer proximidade. Uma tia benzedeira chegou a aventar a
hipótese de Tobias encontrar-se aguado.

– Aguado? Mas no que consiste isso?
– É quando desejamos muito alguma coisa e, por qualquer evento, essa
vontade não se satisfaz, é frustrada por alguma causa muito
traumatizante. Seu primo Ricardo, quando criança, ficou aguado por
causa de um pirulito que na ocasião eu não podia comprar e chegou a
ficar meio abobado por alguns dias. Deu-me um trabalho tremendo para
sará-lo!

A esta altura o advogado percebeu que deveria relegar a solução da
questão para a ciência, motivo pelo qual não tocou no assunto até o
dia da entrevista médica.

Para sua decepção, o dermatologista examinou e reexaminou o local,
intrigado, sem arriscar qualquer diagnóstico. O médico requisitou
inúmeros exames e solicitou o retorno do paciente dentro de trinta
dias.
Tobias, contudo, não poderia permanecer mais trinta dias naquela
indefinição. Principalmente porque angustiava-lhe a hipótese de ter
contraído a doença do barbeiro. Surgiu-lhe, então, a ideia de retornar
ao Toninho Tuberculoso para solicitar-lhe a retirada da costeleta
direita. Nesta oportunidade, criaria coragem para perguntar-lhe se ele
seria portador de tuberculose.

Na cadeira do barbeiro, sob a avaliação inicial do profissional, o Dr.
Tobias recebeu atrevido comentário:

– Parece que o senhor não sabe fazer a barba…
– Como assim?! Retorquiu energicamente Tobias, indignado.
– Ora, percebo que por detrás da orelha do senhor existem muitos pêlos
que não foram cortados…
– É que eu sou um profissional muito ocupado e não tenho tempo de me
barbear no espelho! Faço minha barba debaixo do chuveiro!
Justificou-se o causídico.
– Ué, mas como o senhor faz para não cortar a costeleta com o aparelho
de barbear?
– Isso é fácil – respondeu o advogado como se estivesse revelando
brilhante técnica – com o tato identifico os pêlos e passo o “gilete”
a partir do local em que eles não se encontram!

E, sem dar atenção às demais considerações do barbeiro, Tobias
calou-se, envergonhado, pois acabara de descobrir o motivo científico
pelo qual sua costeleta esquerda não crescia há mais de dois meses.

2 Comentários
  1. Adorei!!! Inteligente, bem-humorada e criativa!!!!! Parabéns Marco!

  2. Pelada por ele. rs. Tempo x Vida (moderna em valores pseudocertos).

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