Skip to content

Grama, vento e cólera – Renato T. de Miguel

by em 31/05/2012

O frio assento de pedra gelava-lhe os ossos, a despeito das grossas camadas de tecido que lhe protegiam  a pele. O vento também não contribuía, e soprava gélido, ressecando-lhe os lábios e os olhos, na medida em que observava as pessoas que frequentavam o parque. Algumas corriam sobre a grama, ou se sentavam em lençóis esticados sobre o solo; algumas promoviam piqueniques, enquanto outras deambulavam apressadamente pelo pavimento sinuoso que seguia por entre as árvores e moitas, até chegar a uma precária ponte de madeira que se arqueava por sobre aquele córrego caudaloso que ele tão bem conhecia. Gostava de ir ao parque massagear os próprios pensamentos; evocar alguns sentimentos que permaneciam anestesiados pela correria do cotidiano.

O parque já havia recepcionado a decepção e o desgosto, e a tímida alegria posterior a um evento ingenuamente sublime; já havia até noticiado o amor que ele um dia sentira – e que levara àquelas árvores em agradecimento às tardes nem sempre felizes que ele, algumas vezes, a elas impusera. Nesse dia, entretanto, ele levava uma frustração levemente sarapintada de raiva. Pensou que a raiva talvez fosse um sentimento nobre, honesto, se não fosse mascarado por trás de um sorriso polido. Pensou que não deveria se recriminar pelas vezes que cultivava esse sentir. Pensou nisso por tanto tempo que a tarde ia chegando ao fim, mas o sentimento não abrandava dentro de si. Ao invés, tornava-se mais robusto, pesando-lhe os ombros e ardendo-lhe os pulmões num fogo antipático que só fazia piorar a frieza com que o vento lhe beijava a face. Essa frustração poderia não lhe trazer nenhum bem, mas, decerto, também não lhe faria mal. E mesmo que fizesse, certamente não o mataria, e não morrer poderia ser considerado um privilégio em um mundo em que às vezes (e somente as vezes) a vida era maravilhosa. A raiva, nesse aspecto, era mais bela que nunca.

A tarde foi embora, defenestrada pelo surgimento das estrelas, que pareciam não se importar com a frustração de quem quer que seja. O vento continuava ali, assobiando por entre as folhas. E a raiva também, grunhindo nos ombros e nos pulmões daquele homem. Pensou que as estrelas indiferentes mais mereciam abraçar aquele sentimento que as tardes coloridas pelos piqueniques e pelos beijos deitados na grama. E foi isso que fez: recostou-se no banco de pedra, permitindo um choque entre o gelo da terra e o fogo agitado dos pulmões, pois sabia que a noite seria longa, porque ali a cólera era nobre, e tinha um lugar reservado na imensidão acima.

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: