Skip to content

De areia, água e sal – Renato T. de Miguel

by em 01/05/2012

Pela orla a criança ia andando devagar, e abaixo dela a areia gelada a lembrava da gravidade que a prendia ao chão. Acima dela, no entando, espalhava-se aquela grande redoma de vidro e cristais que os adultos insistiam em chamar de céu, e essa imensidão, que era pontuada de um infinito reluzir, lhe dizia que a cabeça poderia – e deveria – flutuar ao lado das nuvens. E era apropriado que assim fosse, porque o som das ondas beijando a compacta areia escurecida pela noite era hipnotizante e aprisionava a criança naquele sonho consciente e inocente que lhe acompanhava à beira-mar. A mão direita trazia os chinelos e a mão esquerda carregava as moedas que, a seu turno, a levariam para casa quando o sonho vivo tivesse fim.

Não enxergava nenhum adulto caminhando pela areia ou observando o céu e quis saber como tinham conseguido crescer tanto sem conhecer noites como aquela, pois não acreditava que pudesse haver algo melhor ou mais importante; algo mais digno de ser contemplado. Bem, talvez não tivessem crescido ainda, uma velha criança poderia até dizer.

O vento frio e o limpo cheiro de sal lhe inflavam os pulmões. E ela seguia andando. E embora andasse e pisasse sempre da mesma maneira, notou que as pegadas surgiam abaixo de formas variadas, porque se o solo arenoso fosse mais compacto, as pegadas seriam mais rasas, desaparecendo mais rapidamente sob as espumas brancas que avançavam aqui e ali; se, porém, a areia fosse mais maleável, as pegadas seriam mais profundas e difíceis de serem levadas pelas ondas. Meditou que talvez mesmo após eras de existência o homem ainda houvesse algo a aprender com o mar; talvez as marcas que deixamos no mundo tenham menos a ver com a forma com a qual caminhamos e mais com a areia sobre a qual pisamos, imaginou o menino. Talvez não precisasse controlar todas as coisas, afinal. Isso, àquela criança, parecia um pensamento encorajador.

Sentou-se em um pequeno aclive do solo e desejou não precisar ir para casa. Queria poder ficar ali, desfrutando daquele simples prazer que se apresentava quase como um sonho real. Uma escola feita de areia, água e sal.

Macaé, 30 de abril de 2012

2 Comentários
  1. Muito poético, Renato! Muito boa a idéia de unir uma criança ao mar! E adorei o final! Parabéns!

  2. Renato T. de Miguel permalink

    Obrigado, Alice! 😀

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: