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Deus, o poema – Paulo Roberto de Aquino Ney

by em 28/04/2012

Poema, publicado no livro Metáforas da Alma e declamado, no dia 24/03/2012, em Macaé, por Thiago Amério e Carol Lopes.

Deus, o poema

Sob o eclipse do sol, um outubro gradua
enorme translação. Mercúrio, terra e lua
trocam chispas no céu. Sete provas de fé!
A onda gigantesca encobre os Apeninos.
É o terceiro milênio açodando os destinos,
numa repetição da história de Noé!

Sempre que penso em Deus, procuro dar-lhe forma,
e a idéia que se forma, aos poucos se transforma
numa forma sem forma ou desenho sem cor…
É que, eterno que é, Deus não teve começo
e nem fim. E, assim sendo, eu me perco e padeço
por sentir que subir é descer e repor.

Mas… descer e repor? E quando o solo bruto
era o caos, o negror, era o caos absoluto,
obra do Criador, o Criador seria
exatamente um só? Ou seria um conjunto
de outros seres de luz? Aí eu me pergunto:
será que Deus previu a vã filosofia?

Eu acho que previu. Mas… se é Deus infinito,
Deus não é o infinito? E esse enorme conflito
gera, dentro de nós, o sofisma que vai:
Deus, sendo o Criador de tudo que há no mundo,
e existindo também, Deus seria, no fundo,
seu próprio Criador… o Pai do próprio Pai…

Mas… basta-nos pedir uma chama divina
para intuir que Deus é luz que não termina…
Ele é a causa primeira! É ele o grão e o grau!
Pobres-de-alma, por isso, os que, juntando o efeito
à causa, e desvirtuando o princípio perfeito,
buscam no panteísmo o refúgio final.

É Deus quem nos permite a louca liberdade
do sonhar, do sentir, do crescer de verdade,
do olhar uma esperança e avistar um jardim…
Liberdade!… Meu Deus! Quase a boca blasfema!
Quase digo que Deus pode ser o Poema!…
Quase afirmo que Deus está dentro de mim!…

Deus é único! É bom! É justo! É imutável!
É imaterial! É fonte inesgotável
de caridade e amor perante os filhos seus…
Mas… se a eles é dada uma coisa mais alta,
que revele à ciência o que à ciência falta,
não podem ir além das concessões de Deus.

Mas… por que Deus concede a todos liberdade
sem defini-la em nós? Acaso o acaso invade,
de maneira intuitiva, o que pensa e o que não?
E a inteligência humana, extenso labirinto,
por que às vezes se engana, ao contrário do instinto?
E entre o absurdo e a coerência o que há mesmo é razão?

Ouço vozes de sim. Mas… quem sou eu, poeta,
figura de intermezzo, uma idéia incompleta,
para olhar uma estrela e dizer que ela é irmã
de Sírio na amplidão? De Capela? Ou de Vega?
Ou, quem sabe, é uma estrela entristecida e cega,
que pediu emprestada a luz de Aldebarã?

Mas… quando, acesas, vêm e nos fazem perguntas
de incomparável brilho, e entre as nébulas, juntas
aguardam nossa voz, o diálogo se dá?
Sem dúvida! Acontece é que o invento mesquinho
que somos, nem percebe o que está no cadinho,
e muita vez nem sabe onde o cadinho está…

E o princípio de tudo? A razão do universo?
O princípio é negado. Esconde-se, disperso,
dobrando e desdobrando as dobras siderais…
O mistério, este sim, o das coisas tão belas,
à proporção que Deus aprimora as janelas,
avistamos além… e o menos se faz mais…

Mais ou menos assim a humanidade deve
não mergulhar na terra a vista curta e breve!
Por que buscar no pó os castigos humanos?
Em verdade, uma idéia a seu próprio serviço,
é capaz de vazar o infinito e, com isso,
receber o calor de outros sóis… de outros planos…

Mas… Deus, o Criador, quando enviou o Cristo
através de Jesus, não teria previsto
que a idéia essencial esbarraria em nós?
É claro que previu! É que este chão é vário!
E embora a chuva e o sol, continuará calvário
e intervalo: o buril do que há antes e após!

Intervalo!… Intervalo!… Há bilhões de intervalos
no ciclópico azul. Mas… para pernoitá-los,
havemos de sentir o que sentiu Jesus?
Não! Quanta ingenuidade antecede a pergunta!
Nem o peso de toda a humanidade junta
contrabalançaria uma lasca da cruz!

Uma lasca da cruz! As almas fazem contas,
no eterno devenir que amarra as duas pontas
da vida universal. É o divino mister!
Mas… cuidado! Se Deus mata o mito da morte
no ofício de ser Deus, não há deus que conforte
quem diz querer os fins e acaba os meios quer!

Sob o eclipse do sol, um outubro gradua
enorme translação. Mercúrio, terra e lua
trocam chispas no céu. Sete provas de fé!
A onda gigantesca encobre os Apeninos.
É o terceiro milênio açodando os destinos,
numa repetição da história de Noé!

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