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Caminhando – Alice Rangel Ney

by em 27/04/2012

   Do outro lado do oceano ficaram seus pais. Outros amores também ficaram para trás. Levava apenas uma pequena mala e muita vontade. Como numa música triste nunca mais veria aquele cais.

    Ao pisar na nova terra viveu de ponte em ponte até encontrar seu próprio chão. Era novo e vendia sabão de porta em porta, que ele mesmo fazia. Nas horas vagas aprendia mágica. Economizava aqui e ali, ganhava gorjeta acolá e na saída do mercado, carregando as compras das senhoras. Inventava um novo nome para o sabão e se oferecia para cuidar do capim que insistia em nascer nas casas dos antigos coronéis.  Passeava com cachorros e lavava uma camisa enquanto usava a outra. Às vezes não almoçava. Em pouco tempo começou a fazer pequenos números com baralhos e moedas para as crianças do bairro. E em seu quintal seu sonho começou a se tornar uma grande lona. Tão grande que sairia pelas cidades e receberia o nome de circo do seu Nonô.

  Ia pelas cidades com uns pequenos números de mágica, dois palhaços e alguns animais. Com o dinheiro arrecadado com toda a venda dos sabões comprou alguns alimentos e algumas fantasias. Em um carro velho carregava seu sonho e à noite usavam-no para dormir. Ao passar nas cidades vendiam ingressos, ganhavam comida e alguns aplausos. Estava emagrecendo, mas seu sorriso era farto. A barba crescia e o desejo de ir sempre para outra cidade também. Era o primeiro a incentivar os amigos palhaços e o último a comer. Suas mágicas eram simples, mas sabia transforma-las em uma grande festa para as crianças.

   Ainda não tinham saído do Estado quando a viu. De longe em um vestido florido com maneiras gentis. Usou toda a mágica de seu pensamento para se desviar dela, mas a festa que seu coração fazia era maior. Ela o arrebatou e o levou. No mesmo carro velho deixou o circo para trás. Como num filme antigo nunca mais veria aquele céu de gris.

   Hoje, de cabeça branca e sorriso franco, faz mágicas para os netos. Os enche de guloseimas e outras coisas mais. Brinca de soldado e de trapezista. Inventa que é o dono da mercearia da esquina e que podem escolher o que quiserem. Oferece beijos e sonecas no meio da tarde. E o show do circo acontece agora em meio aos livros de sua livraria no centro da cidade. Como num livro raro, vive feliz.

From → Alice Rangel Ney

16 Comentários
  1. Renato T. de Miguel permalink

    Excelente! Muito bom!

  2. Shirley permalink

    Que lindo Alice, não sabia de mais esse dom que vc tem, que gracinha moça!
    Parabéns.
    Mande-me mais sempre.
    Obrigada
    e grande bjo.

  3. Shirlynha, muito obrigada!!!! Talvez o meu dom seja o de gostar de ler e de escrever! Se ainda agrado vocês é bom demais! Beijos!

  4. aarteprocurandoserreposta permalink

    Alice, este foi fenomenal!

  5. Gostei pra caramba.Voltei no tempo, e me vi encantada com a chegada do circo,e dos magicos.Lindo!Lindinha da mae!

  6. Sandra Bicalho permalink

    Ao pisar na nova terra viveu de ponte em ponte até encontrar seu próprio chão.
    Minha amiga o texto escrito remete para dentro de cada um, entendo que essa nova terra somos nós buscando aprender a amar, por meio dessas pontes que podemos chamar de reencarnação e me atrevo a pensar que o chão representa o pedaçinho dentro da vida, por meio da qual, o Pai permite que não só aprendamos a amar, mas amar servindo, Esse é a beleza da VIDA.
    Beijão, Sandra.

  7. rafaela permalink

    Nossa que lindo! Parabéns Alicinha! beijos. Rafa

  8. Filipe Piastrelli permalink

    Fantástico.

  9. Ai ai… Adoro quando vc escreve! Saudades!

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