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Aquele que não existiu – Renato T. de Miguel

by em 25/04/2012

É curioso saber que um homem não sente medo. E assim é desde que aquele homem nasceu. Nunca chorou, pois nunca temeu a dor que sentiu. E as cicatrizes contavam histórias de sangue perdido, pois nenhum desafio lhe impunha temor, ainda que grandes demais para serem suplantados. Não entendia o culto aos mortos, eis que não temia a morte, de modo que não se sentia ligado a ela. Sempre se sentava sozinho, pois a ele faltava a humanidade procurada em toda interação humana. Não era capaz de amar, porque nunca se ouviu falar de amor sem o medo de perder. Não sentia medo, é claro, mas se sentia incompleto. Queria temer, porque, ainda que nunca tivesse experimentado aquele sentimento, sabia que era essencial. Queria o medo do amanhã, queria o medo da dor e, mais importante, sentia a necessidade de amar. Sabia que não seria ninguém enquanto não pudesse ser como dois. Queria dividir.

Mas querer não é poder. E a sua natureza era aquela. Não temia nada. Era destemido e bravo como nunca se viu. Talvez servisse àquela própria natureza antihumana. Talvez fosse feito para não amar. Talvez até para praticar o desamor. Não compreendia a necessidade que o mundo poderia ter em receber em seu seio um homem como aquele, mas o fato era que existia – esse era o mistério que verdadeiramente não compreendia.

Um dia notou que temeu nunca vislumbrar seu lugar neste mundo. Talvez estivesse no caminho certo. Talvez um dia pudesse temer de verdade. Talvez um dia pudesse perder, e por isso, sentir medo. Talvez um dia pudesse… talvez.

4 Comentários
  1. Renato, você escreve sobre os homens e eu falo das mulheres! Gostei!

  2. Renato T. de Miguel permalink

    Hehehe! 😀

  3. “Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo á ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro , sem movimento, sem ar – ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e pertubações do amor é o inferno.”

    C.S. Lewis

  4. Renato T. de Miguel permalink

    Belo texto esse di C.S Leweis!

    O medo é essencial, afinal, como eu disse no texto (e acredito nisso), não existe amor sem o medo de perder.

    Por isso, acho que um homem inteiramente destemido seria mais um homem ‘distópico’ que utópico.

    🙂

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