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O ídolo homem – Renato T. de Miguel

by em 21/04/2012

A tez morena e franzida contrastava com os ralos e escassos fios prateados que repousavam sobre a cabeça daquele homem. O semblante era rígido, porém amável; exibia uma força que confortava aqueles que o rodeavam. Para os filhos era uma bastilha de pedra e afeição; para os netos era um herói e um salvador.

Gostava de se levantar cedo. E por onde andava era seguido pelos fiéis cães que guardavam o sítio em que morava – prêmio de uma vida de provações e sucesso que agora lhe servia como sagrado local de descanso, um paraíso particular na Estrada da Fita em Pedra de Guaratiba, pequeno reduto de pescadores no Rio de Janeiro.

Andava resoluto pelo solo relvado. Aqui e ali surgiam árvores das quais brotavam os mais diversos frutos. Havia limão galego, fruta pão, laranja, pitangas, caju e jabuticaba. Passava por várias delas até chegar à horta que cultivava na parte mais ao sul do terreno. Ali fazia a sua mágica todas as manhãs, logo depois de soltar as galinhas, os galos e os patos que começavam a cacarejar nos poleiros circundados por cercas armadas por suas próprias mãos. Gostava também de capinar e, quando se punha a realizar aquela atividade, contava com a valorosa ajuda do neto caçula de cinco anos, que calçava galocha tal qual o heroi ao seu lado; não aguentava manejar o ancinho, é claro, tampouco podia envergar a enxada, por óbvio, mas trazia a energia necessária ao desempenho daquele ofício, postando-se orgulhoso ao lado do avô.

Aos domingos ia ao centro do bairro comprar peixe e fazer a feira com a esposa. Às vezes parava com os netos na velha taberna de pescadores e comprava uma dúzia de empadas de camarão.

Durante o restante da manhã se punha a limpar meticulosamente a piscina, enquanto as crianças observavam inquietamente pelo comando que lhes permitiria correr e se atirar na água cristalina. Se a ocasião fosse boa, haveria churrasco e sinuca e, embora não fosse sujeito de muitas e sonoras palavras, todos poderiam ver a felicidade estampada no velho rosto de pedra.

À noite juntava suas riquezas ao seu redor no confortável colchão do seu quarto. Eram as crianças, é claro. Os netos. Eles queriam histórias, embora conhecessem de cor e salteado todas elas. A preferida era a da bruxa do norte, a Matinta Perera e a saga do menino Petronílio e seus cachorros que se embrenharam pelo meio selva e se meteram a lhe furtar alguns biscoitos. Contava aquelas histórias pela milésima vez e sempre se seguiam os tradicionais “e o que aconteceu?” acompanhados de suspiros de surpresa e nervosismo. Petronílio sempre vencia, afinal.

Mas nem todos os ídolos vencem, e o tempo sempre leva os homens, ainda que tenham o fogo e a pedra no espírito e no caráter. O importante é o que fica quando se vão. E hoje, olhando ao redor, contando uma a uma as peças do legado deixado, posso agradecer pela herança que ficou em mim, e pedir a Deus pra que me faça grande o bastante um dia e que me permita, também, deixar aos meus a boa parte do fogo que recebi.

2 Comentários
  1. Ótimo, Renato!!!!

  2. Renato T. de Miguel permalink

    Valeu, Alice!

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