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Aquela eletricidade – Renato T. de Miguel

by em 12/04/2012

Hoje era aquela promessa de eletricidade. O que seria amanhã? Andava em círculos pelo chão de granito muito limpo. Todas as luzes do terminal eram ali refletidas. Aguardava a bonita voz feminina que viria do teto anunciando meu voo. A ansiedade latente me roubava a vontade de ler, de comer, de parar. Andava em círculos, e às vezes em linha reta. Ficava no máximo por alguns segundos em frente a alguma vitrine, observando as coisas sem ver. Remirava o relógio incessantemente, como se os ponteiros fossem avançar mais depressa.

Faltavam poucas horas, uma pequena voz na minha mente insistia em dizer. Mas ‘horas’ não atendiam à minha necessidade. Queria segundos, milésimos, se possível fosse. Quantos dias faziam desde a última vez? Cinco? Seis? Poderiam ser mil; não saberia precisar a diferença. Muitos quilômetros e horas me separavam daquela visão e daquela sensação. Queria a eletricidade real, e não essa expectativa lancinante que me torvava a alma.

Olhei em volta e vi um homem recostado num dos assentos que perfilavam-se no meio do saguão. Parecia estar dormindo. Os olhos adornados por óculos de hastes grossas estavam fechados. A boca parecia querer se abrir a qualquer momento, denotando aquele relaxamento facial peculiar aos adormecidos. Pensei que os fones que lhe cobriam as orelhas poderiam facilmente estar tocando alguma canção de ninar. Invejei aquele sujeito. Gostaria de simplesmente relaxar e apagar; sopitar aquela dor quase perene. Gostaria de adormecer e acordar em meu destino. Seria tão simples. Esperar, no entanto, era uma tarefa árdua e complexa.

As horas arrastaram-se lentamente, tal qual um boi de arado no verão. Finalmente a voz etérea que vinha do alto anunciou a minha salvação. Apressadamente, me dirigi ao portão 21, rendendo-me aos procedimentos tradicionais. Nervosismo e sorrisos polidos eram parte do jogo. Passei pelo tubo, cheguei à aeronave e localizei o meu assento. Joguei-me sobre ele e, em vão, tentei relaxar. Vi a mim mesmo, naquele momento, como um anti-Tyler Durden, rindo desse pensamento inusitado.

Deitei a poltrona. Aguardei os anúncios. Observei enquanto a grande máquina taxiava lentamente sobre a pista. Segurei-me aos braços da poltrona quando ela fazia a sua chacoalhante magia que a tirava do chão, revelando uma cidade que mais parecia um amontado de caixas de fósforo em tons cinzentos. Meu estômago rodopiava enquanto eu fechava os olhos. E embora o panorama que se mostrava através das janelas fosse muito bonito (o complexo recorte de nuvens às vezes parecia uma sombra invertida da própria cidade que se estendia lá embaixo, como um negativo de uma bela maquete), somente uma visão surgia por trás dessas pálpebras inquietas. E somente uma.

Seguia sentindo aquela promessa. Esperava, agora com muito gosto, pelas horas que me viriam.

3 Comentários
  1. Renato, estou gostando cada vez mais dos seus textos!!!! Parabéns!

  2. dmiguelrenato permalink

    Obrigado, Alice! Também gosto muito dos seus textos e acabo gostando muito tambem dos seus comentarios, pq deve ser uma leitora exigente, ou nao escreveria tao bem hehehe. Valeu!

  3. Renato, exigente deveria ser meu sobrenome!!!!! Rrsrrs!

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