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O Concerto – Alice Rangel Ney

by em 11/04/2012

Era uma grande praça, com muitas árvores grandes e com um coreto grande e amarelo. Em frente ficava a padaria. Era ali que ela gostava de ficar. Muitas vezes pulava a janela de casa, e escondida, ia até a padaria, comprava algo proibido e se dirigia ao coreto. Lá do alto, sentada, gostava de observar a vida passando.

Ela não conseguiria fugir todos os dias e também ficaria cansada. Tinha um morrinho de pedras para descer até chegar ali. Algumas vezes a pegavam no portão e outras ela via que a estavam seguindo. Quando percebia as sombras, ela ia até a padaria, comprava o dobro de coisas proibidas e voltava para casa.

No coreto ela não pensava muito na vida, não. Suas ideias estavam ficando fracas, pensava ela. O passado estava a muitos calendários atrás e o futuro não demoraria também a passar.

Algumas vezes pensava nas irmãs e logo a bola do jogo das crianças a despertava. Elas brincavam folgadas sem a perceberem. Ela gostava, de pelo menos ali, no alto do coreto amarelo, não ter ninguém achando que ela precisava de tanta atenção.

Alguns dias pensava nos filhos que não quis ter e no marido que um dia não conheceu, mas logo um pássaro cantava ali ou pousava no arco do coreto e ela desviava novamente os pensamentos.

Outras vezes, rapidamente, antes do casal novamente declarar amor sentados no banco pintado de branco, ela pensava nas coisas que não poderia comer e as apertava no bolso, para comê-las antes da próxima brincadeira de roda.

Ficava sentada alguns momentos ali, tantos momentos que ela não saberia precisar, e antes do por do sol e depois de uma partida de damas disputadas pelos dois velhinhos na mesa pintada com os quadradinhos, ela saboreava seus doces e descia à rua de volta para casa.

E mais uma vez suas irmãs perguntariam o que ela comeu e porque demorou. E ela não responderia.

Ela via quando a moça nova, cansada, descia do ônibus e passava na padaria saindo de lá com um pacote nas mãos e reparava também nos passarinhos e pombas que comiam as migalhas de outro pão deixado no meio da praça.

Gostava de observar quando o ônibus parava e o motorista pedia um café. Às vezes pedia água. Verificava a avó levando a netinha uniformizada pelo braço e a mãe parando o carro para comprar o lanche do filho. Via os cães com os donos e tinha medo dos sem donos.

Outras vezes via as folhas caídas e percebia o barulho musical que faziam quando eram pisadas. E se lembrava das teclas do seu velho piano. Mas logo esquecia o piano e observava as flores chamando as abelhas.

Algumas pessoas a olhavam também e deveriam se perguntar por que alguns dias da semana ela ficava no alto do coreto amarelo, sentada, observando e comendo algo escondida. Mas pensavam tão silenciosamente quanto ela.

Até que um dia, sonhava, antes da próxima primavera, ela sairia pela porta de frente, deixaria as irmãs e não passaria na padaria. Num domingo, mudaria sua melhor roupa e não colocaria nada nos bolsos. As irmãs não iriam atrás dela. Dirigir-se-ia ao alto do coreto amarelo, sem sorrir e com o semblante pacificado; tendo ao redor, lá fora, as folhas a serem pisadas e o céu cheio de nuvens; tocaria seu velho piano ainda uma última vez.

E quando as primeiras gotas de chuva caíssem; das nuvens agora carregadas; os pássaros, abelhas, cães, crianças, mães e avós, ao ouvirem a música vinda do alto perceberiam, em paz, que era hora de partir.

From → Alice Rangel Ney

5 Comentários
  1. Liiiiindo!!!!!!!! Parabéns!!!!

  2. Leonardo permalink

    Adorei o texto. Cabem várias reflexões, de cada ponto de vista uma lição diferente.
    A linguagem tb está parecendo as músicas do Chico.
    Vc está de parabéns!!!!!!!!! Continue assim, olha que em breve este blog vira um livro…

  3. Gedir permalink

    Essa é minha menina…Bjs. Gostei!

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