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A velha canoa – Renato T. de Miguel

by em 04/04/2012

Eu ia caminhando pela infindável areia branca. O sol forte refletido no solo macio fazia o mundo se encher de uma luz febril. Era agravádel andar sozinho, mas mesmo assim chegou o velho. A princípio, nada disse, apenas se postou ao meu lado, enquanto mascava fumo e ajeitava as roupas surradas.

Começou a falar, e a voz rouca dissonava da aparência frágil. Disse que gostava de andar pela areia, pois o mar era muito traiçoeiro. “Previsível é bom”, disse. Perguntou-me pra onde eu levava minha sombra e respondi que não havia pensado no assunto. Era verdade. O velho sorriu. Conversamos sobre muitas coisas. Sobre o sol, sobre o céu, sobre a areia e sobre as chuvas. Falamos a respeito dos lugares pelos quais tinhamos caminhado. Em dado momento questionei se pensava ser correto andar. Andar pelo bem de andar. Andar como um fim e não como um meio para se chegar a algum lugar. O velho não pareceu particularmente intrigado pela questão. Talvez não soubesse a resposta, ou talvez soubesse respostas demais para se preocupar com o caminho que os pés percorriam. Talvez desse mais atenção à própria cabeça. Ou talvez fosse tão vazia que qualquer pergunta se tornaria infértil.

Depois de alguns dias errando em silêncio, o velho ergueu os olhos e disse que tinha caminhado a vida toda. Andou por todos os lugares do mundo. Dormiu em florestas, subiu as montanhas e nadou nos mares e rios. Os ombros caídos só faziam exacerbar a atenção que era dirigida ao tímido gesticular das mãos. Até então nunca tinha refletido sobre a finalidade de andar, ele disse. Agradeceu, acenou e foi embora.

Continuei pela areia. Previsível não podia ser tão bom. Achei que seria correto descobrir porque eu caminhava desde que nasci. Aprumei a mochila nas costas e fui em direção ao mar. Os infinitos leçois azuis que atemorizavam os velhos covardes deviam ter algo a dizer aos jovens. Inspirei o úmido ar salinizado e me senti imediatamente mais limpo. Apossei-me de uma velha canoa meio tombada em uma duna próxima. Os remos pareciam ainda bons. Entrei na água, desafiando as ondas que, embora pequenas, eram um adversário formidável àquela débil embarcação. Fui até aonde não mais podia ver a costa. Notei que, a princípio, minha intenção era desafiar um velho, mas, tendo chegado até ali, talvez pudesse ver um pouco mais.

Fui remando…

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