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O cinza – Renato T. De Miguel

by em 26/03/2012

O som não era ruim, admito. Era, no entando, tudo de bom ou útil que esse aguaceiro celeste tinha a me oferecer. Podia ser agradável aos ouvidos, ainda mais se eu tivesse vontade de dormir, mas até o sono era um desserviço a mim mesmo nesses dias cinzentos, com tantas tarefas ainda por serem feitas.

Assim, o inevitável desânimo era o grande resultado das águas de março, o que, naturalmente, me levou a desejar febrilmente o retorno do sol. E a frustração era o produto desse desejo, porque nada podia fazer a não ser ansiar pela generosidade da natureza.

Dito isso, questiono: a quem, afinal, apetecem os dias cinzentos? Há alguem neste mundo azul que se permita comprazer com um céu tomado por essa paleta única de chumbo opaco? Sem dúvida não é boa coisa ver o céu agrisalhando-se dessa maneira; tornando lúgubres até palavras que melhor figurariam em uma crônica a respeito do sol ou do amor.

Decidi que não gosto do cinza. O gris deveria permanecer apenas no campo das ideias, eis que a polarização entre preto e branco (ou quaisquer outras noções absolutas e diametralmente opostas), nesta área, geralmente leva ao preconceito, à intolerância e a outros sentimentos indesejáveis; mas não na natureza e, sem dúvida, não nas nossas vidas. Deveria ser banido e substituido pelo verde, pelo azul ou pelo amarelo. As pessoas não deveriam casar trajando o cinza, e também não seriam felizes se seus corações fossem acinzentados ao invés de vermelhos. E a prata nunca será maior que o ouro. E os prédios não serão maiores que as florestas, nem o cimento será mais belo que o mar. E me atrevo a dizer que chover não seria tão mau caso o céu trocasse em dourado ou vermelho quando março chegasse. E os dias não seriam tristes, e aquele desânimo cinzento não teria forma, sendo um magro e distante desafio à alegria que as cores nos trazem, mas que os dias vindouros nos tentarão fazer esquecer, pois é março, chove, e os dias são escuros e os arco-íris, proibidos. O meu consolo, porém, é saber todo março tem seu fim. Ah, quem me dera também o cinza o tivesse!

4 Comentários
  1. Thiago permalink

    todo carnaval tem seu fim… enfim… assim… esquece o cinza!

  2. dmiguelrenato permalink

    O sol de hoje me fez esquecer o cinza… espero que dure, hehehe

  3. “São as águas de março fechando o verão,
    É a promessa de vida no teu coração”

    Gostei muito! Mesmo gostando muito dos dias chuvosos!
    Parabéns!

  4. dmiguelrenato permalink

    Valeu, Alice!

    Os dias chuvosos têm o seu valor. Não desgosto completamente e, apesar de preferir os dias ensolarados, escrevi esse texto nuns minutos de frustração que esse domingo chuvoso me trouxe heheh

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