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Sem rumo – Filipe Piastrelli

by em 17/03/2012

Depois de ter feito o café para o marido e vê-lo sair para o trabalho, Ana voltou para a cama e se cobriu. Olhou o relógio de ponteiro com o escudo do Flamengo no fundo na parede do quarto, ainda eram seis e meia. Cerca de duas horas depois já era tempo de se levantar, mas não queria. Na verdade, não conseguia, como se um peso de 200kg a amarrasse ao colchão. Um sentimento de vazio lhe tomava como todos os outros dias nos últimos meses. Aquilo começara tão lentamente que nem pudera perceber.

Entretanto, sabia que não podia continuar ali. O filho Gabriel precisava fazer o dever de casa. Chegou ao minúsculo banheiro da pequena casa alugada. No mesmo terreno haviam mais 4 casebres de aluguel, fontes de renda para uma rabugenta senhora que morava do outro lado da rua. Lavou o rosto e se observou no espelho. A expressão fechada era uma companheira contínua. Ajeitou o cabelo com a presilha e novamente ao se observar começou a chorar. Nem ao menos sabia o porquê. Entretanto, já era a quarta vez em uma semana.

Com os olhos ainda vermelhos terminou de lavar as vasilhas sujas desde a noite anterior. O tempo corria como não desejava. Enquanto preparava o almoço se distraía vendo o filho com os cadernos. Estava sentado à mesa de quatro lugares que fazia a divisão entre a cozinha e a sala. Atrás dele, o sofá gasto com revestimento esburacado e o televisor de 14 polegadas.

Deixou Gabriel na escola e se dirigiu para o emprego de meio horário que arrumara há 3 semanas. Cobria as férias de uma balconista em uma lanchonete do centro da cidade, mas passava a maior parte do dia ouvindo gritos. Embora soubesse que era capaz de realizar muito bem aquele trabalho, não entendia o que acontecia, nunca nada estava bom.

Já estava escuro quando desceu do ônibus. Caminhava rápido para casa. No bar da esquina, viu o marido sentado tomando cerveja com mais 2 homens e várias garrafas sobre o balcão. Queria chamá-lo, mas da última vez que fizera não ouviu boa resposta.

Terminava de ajeitar o jantar quando o marido chegou. Acenou com a cabeça de longe como se cumprimentasse uma conhecida qualquer. O cheiro de álcool ia longe misturado com o odor impregnado na roupa de trabalho. Deitou-se no sofá até o momento que Ana levou-lhe o prato de comida.

Deitou-se. Contemplava o que se podia ver do teto com a pouca luz do poste que adentrava pela janela. O marido entrou no quarto e ela fingiu dormir. Não adiantou. Ele a tocou várias vezes, ela permanecia imóvel. Então esbravejou sobre seus direitos de homem. Ela afastou as pernas e aguardou o fim do ato mecânico. Acabou. Ele se virou, resmungou e, em pouco, dormiu.

No dia seguinte, ela levantou às 10 para as 6 para fazer o café como todos os dias.

One Comment
  1. Filipe, acho que quem está sem rumo é o marido…
    Muito bem escrito. Triste!

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