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O bem de não sonhar – Renato de T. Miguel

by em 17/03/2012

Durmo. Peguei a minha bicicleta, abri o portão, atravessei-o e fui pedalando. Segui em frente, virei à esquerda e subi a ladeira. Fiz um grande esforço e minhas pernas doeram. Minha bicicleta não é das melhores – minhas pernas também não, pensei, abrindo um sorriso.

Desci a ladeira em uma velocidade libertadora. O vento lambia os meus cabelos para trás, chicoteando as minhas orelhas. Às vezes sonhava em voar. Imaginei que era um bom modo de tornar estes sonhos realidade: correr com a cabeça erguida contra o vento. Um dia farei isso.

Voei por algumas dezenas de metros e subi outra ladeira, em direção à civilização. A lua era o meu guia e nesse dia ela era uma perfeita bola de gelo acima de mim, brilhando em sua pálida nitidez. Meu caminho era irregular. As ladeiras eram íngremes e, as descidas, esburacadas. Descia em pé na bicicleta e minhas pernas faziam as vezes de amortecedor. Uma mente divagante imaginaria a probabilidade de ser tão prazerosa a conjugação de alumínio, vento e gravidade. Fugi desse pensamento.

Cheguei onde viviam pessoas. Havia casas, prédios e grandes salões comerciais, que já se encontravam fechados, pois a noite já avançava bem sobre o dia. Pedalava naquela cidade desconhecida, em meio a pessoas desconhecidas. Eu as via, mas não era visto, talvez isso fosse injusto, mas minha função não era dar justiça. E não queria pensar sobre justiça. Queria algo mais simples: pedalar e seguir o vento.

Essa noite eu tinha todo o tempo do mundo, pois nos mundos oníricos o tempo é mais generoso. Fui em direção às luzes da estranha cidade. Algumas eram brancas, outras amarelas e as minhas preferidas eram as verdes. Onde havia luzes também havia casas e muitas pessoas caminhavam na rua, apesar da hora. Também havia música, e em meus ouvidos, Marcelo Falcão berrava “Não tenho pressa, não tenho plano, não tenho dono”. Ninguém parecia ouvir a melodia e a letra, acho que elas só ecoavam dentro da minha cabeça – isso, sim, me pereceu injusto.

Pedalar era um excelente meio de pensar. O vento frio açoitando o meu rosto ajudou-me a clarear a mente. Minhas pernas impulsionavam a massa de carne e alumínio à frente, e a cabeça impulsionava as ideias, que voejavam por sobre o que eu veria quando acordasse. Assim, ignorando as luzes verdes, pensei em tudo. Pensei em como as escolhas tinham-me feito e até onde haviam-me empurrado – poderia ser pior, concluí. Pensei no futuro, imaginando o que seria feito dele. A ambição nos sonhos se tornava um pouco letárgica, o que me fez divagar se não deveria ser o contrário. Se meu lugar no futuro estava reservado, ou se o caminho já havia sido escrito, pouco me importava naquela cidade de estranhas luzes. Em minha pequena experiência de homem vivo, achava que projetar os tempos vindouros era um exercício fútil. Achava que as pessoas eram movidas por desejos imediatos, que lhes davam uma ilusão sobre o que queriam para o amanhã, de sorte que eu mesmo não me planejava – não conscientemente, pelo menos. Viver corretamente cada dia deveria ser o bastante. O futuro me dirá se tenho razão.

Segui refletindo.

Pensei nela, nos olhos e cabelos escuros, na pele clara e no sorriso mais branco que a paz. Na voz feminina, no cheiro de coco e sabonete. Nas mãos pequenas, macias e mornas. Pensei nos lábios rosados, tentando lembrar da sensação de quando tocavam os meus; fechei os olhos, abrindo-os logo em seguida, pois tive medo de acordar. Pensei em como era bom pensar nela, e desejei, com certa vergonha, saber se também pensava em mim.

Pensei em como eu era, em como era difícil estar satisfeito. No início da saga, contentava-me com o brilho das estrelas, agora, no entanto, ansiava pelo calor do sol. Pensei em como eu gostaria de ser diferente; depois pensei em como seria maravilhoso ser eu mesmo em um mundo diverso, mas que não fosse feito de sonhos, pois neste eu pedalava sozinho.

Este era o grande desafio, meditei. Contentar-me. Encontrar meu lugar no mundo e me postar sobre ele até que adquira a forma dos meus pés. Saber que não verei esse mundo perfeito e nem mesmo os melhores lugares do meu próprio mundo. Contentar-me em abrir os olhos e procurar minhas próprias luzes verdes, e se não forem verdes, amá-las mesmo assim.

Continuava. Estes pensamentos haviam melhorado meu equilíbrio. Pedalar tinha se tornado mais fácil, e minhas pernas não mais doíam. O meu tempo terminara, no entanto. Era hora de abrir os olhos. E assim eu fiz. Abri os olhos e procurei as luzes. Nada encontrei, pois estava escuro. Levantei, lavei o rosto e encarei o espelho. Nada do que se podia ver mudara.

Acordado, peguei a minha bicicleta, abri o portão, atravessei-o e fui pedalando. Segui em frente, virei à esquerda e subi a ladeira. Eu era o mesmo, mas o mundo parecia um pouco diferente. As luzes sem dúvida não eram as mesmas. Continuei pedalando e segui adiante, esperando que esse fosse um dia em que eu não desejasse sonhar.

16 de março de 2012

2 Comentários
  1. Desculpem, amigos! Ficou muito longo hehehe. Tentarei ser mais breve nos próximos. Abs

  2. Anônimo permalink

    Muito bom!! Mas qual o quê dessas luzes?

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