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O que não sei sobre o mar – Alice Rangel Ney

by em 13/03/2012

O mar devia ter um cheiro bom e a areia ser fofa. Imaginava também que suas águas deveriam ser quentinhas e brandas. Como uma família. Nesta ocasião, eu ainda não sabia que podiam existir vários tipos de mares e praias. Mas já sabia que uma família podiam ser várias. E eu, não conhecia o mar.

Um dia entrei no ônibus verde, o mesmo que eu sempre pegava para ir à escola e não desci no ponto como de costume. Quis ir até o final. Neste dia resolvi vê-lo de perto.

A cidade era pequena e margeava um rio. O cheiro do rio eu sabia. Eu tinha medo de atravessar a ponte. E não queria saber se suas águas eram quentes. Brandas não eram. Muitas famílias tinham perdido muitas coisas. E, eu sabia, o rio havia separado a dona Rosalina do seu Joaquim.

Quando desci no centro da cidade, fiquei um pouco confusa com tantos vendedores. O ar cheirava à pipoca e a milho verde. Mas o rio ainda estava perto. A avenida principal ficou para trás e eu desci a rua da livraria.

Passei pela rua dos escravos e pela rua do presidente e dei a volta no prédio dos correios. Logo a seguir, após a banca e os bancos eu chegaria à praça. Ao lado ficava a igreja e mais adiante as lojas. Eu não via os sapatos e bolsas. E ainda não sentia o cheiro de café. Só esperava ouvir as badaladas. Hoje eu iria procurá-lo.

Rosalina não falava mais nele, acostumou-se a calar. Havia tanto tempo, eram jovens. Ele decidiu atravessar o rio e ela precisou ficar. Eu pensava nela porque ela também não conhecia o mar.

Eu sabia que o prédio ficava ao lado do correio e que era na praça que eu o veria. Mas hoje eu iria tocá-lo. Mas não estava na hora. Seria somente após as seis badaladas.

Sentei-me num banquinho. Eu ainda esperava um cheiro e um som. Um grupinho de crianças mal-vestidas brincava na fonte de um lado e no outro havia pessoas vendendo cartões postais. Sentada no banco comigo havia uma velhinha tricotando, mas ela não me lembrava Rosalina.

Após o entardecer, o vento soprou com mais vontade avisando aos carteiros, vendedores, bancários, aos crentes, aos transeuntes e às crianças que estava na hora de ir para casa. A velhinha ao meu lado, após falar qualquer coisa comigo, se levantou. E eu comecei a sentir o cheiro do café preto forte que os homens gostavam de tomar àquela hora.

Ergui o pescoço para vigiá-lo de longe. Sei que logo ele chegaria. Desceria do prédio e seguiria o caminho do café.

Rosalina não sabia que eu estava ali, mas também não ignorava. Ela deveria estar em casa e talvez pensasse nos filhos, porque não os perdeu para o rio. Eles também atravessaram a ponte. E voltaram para buscá-la. E agora, nós, os netos, não sabíamos nada sobre o outro lado.

Antes de soarem as badaladas eu me ergui para vê-lo chegar. Eu o sabia todo encurvado e de cabelos branquinhos. Estaria de terno e andaria devagar. E não estaria sorrindo.

Depressa, a praça ficou cheia dos outros homens que também já haviam se liberado dos labores diários, e eu fiquei com medo de perdê-lo de vista. E eu havia resolvido que naquele dia iria conversar com ele.

Imaginei ele descendo o prédio, virando os correios e indo, lentamente, pedir seu café preto forte. Eu o vira poucas vezes e Rosalina sempre contava as mesmas histórias. Meu repertório sobre ele era pequeno. Era dentista prático no prédio ao lado dos correios. Casou-se de novo e morava em frente ao rio. E ele conhecia o mar.

E hoje, antes de pegar o ônibus verde, e após sentir o cheiro do rio novamente, ele me veria.

Quando finalmente ouvi por toda a praça as seis badaladas, vindo da igreja matriz, misturado ao café e trazidos pelo vento até a mim, corri até ele. Cheguei bem perto daquele homem, aquele mesmo homem que um dia escolheu outra vida, e disse:

_ Vô, me leva para conhecer o mar?

Alice Rangel Ney

From → Alice Rangel Ney

9 Comentários
  1. Eduardo Oliveira permalink

    Eu imagino todas as cenas. Estou em viagem com seus textos. Muito bom!!! Obrigado.

    • Eduardo, obrigada mais uma vez!!! Que bom que você está gostando!!! Vai nos acompanhando aí de São José dos Campos!

  2. Genine permalink

    Esse negócio tá ficando sério viu!!!! Adorei

  3. gedir permalink

    Lindo! Amei! Gostei para caramba…

  4. diogo permalink

    Eu nao sabia que vc era boa nisso..Gostei! Diogo

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