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Insônia dos justos – Renato T. de Miguel

by em 13/03/2012

A manhã era quente, porque era novembro, e o firmamento não ostentava nuvens, apenas o azul celeste embrulhava a terra.

Eu encarava a tela do computador, digitava uma peça para o estágio; uma atividade corriqueira num sábado. Ouvi um estampido, do tipo que ocorre quando algo ruim acontece. Meu irmão saira de casa não há muito tempo. Corri para a rua num ímpeto. O ônibus já havia partido, e não havia sinal dele. Meu estômago se alegrou num alívio conhecido.

Uma pequena aglomeração formava-se na subida da ladeira. As pessoas rodeavam um carro, um celta preto. Ou seria um gol? Nunca fui bom em identificar modelos de automóveis. Aproximei-me, apesar de não ser muito curioso. Subi a ladeira e não olhava ninguém nos olhos, mas os ouvia murmurando. Cheguei ao carro. A vidraça dianteira estava cravejada de pequenos buracos, dos quais brotavam milhares de rachaduras que serpenteavam pelo vidro reforçado. A carne adiante seguia o mesmo exemplo, e havia sangue. O homem sentado no banco do motorista pendia debilmente para um lado, a cabeça meio tombada no ombro direito. Por que os olhos não brilhavam? Pensei infantilmente. Era mesmo um sorriso que se formava nos lábios entreabertos? Agora, apenas Deus poderia dizer.

Meti-me a dar ouvidos ao que os vizinhos diziam: “Estava devendo”, “batia na mulher”, “não era boa gente”. Parecia haver um consenso entre essas vozes.

Ouvi o segundo som que me marcaria o dia: um choro alto, parecia estar ungido mais de desespero e menos de tristeza – geralmente a tristeza chega depois. Vinha do lado direito da rua, e vinha de cima. Mais especificamente de uma varanda. E vinha de uma mulher, o que era pior. Estava grávida, o que era terrível.

Bons homens foram prestar-lhe ajuda. Os rugidos dela pareciam doer-lhe a garganta e a alma. A mim, sem dúvida, causavam dor nos ouvidos e no coração. Ela realmente apanhara do homem morto? A resposta parecia não lhe importar agora. Estava morto, e não era mais homem. Aos vizinhos isso muito significava e tudo dizia.

“Quem procura, acha”, asseverou uma senhora trajando um vestido estampado; as sobrancelhas soerguiam-se por sobre os olhos decididos. Devia ser verdade. “Quem procura, acha”. Agradavam-me esses jargões do cotidiano. Pequenas verdades já prontas para o consumo, e a nós basta repeti-las sem maiores reflexões. Pouco importava se tinha mulher e filho. O futuro a Deus pertence, e assim caminha a humanidade. As verdades fervilhavam nessas pessoas, afinal, nelas não havia pecado, pois o cordeiro de Deus naquele dia já fora abatido. Estávamos todos seguros. Éramos todos heróis e vibrávamos com a queda dos vilões, e estes faziam bem em cair, para o nosso bem.

Fui para casa, o dia havia terminado, mas ainda não era meio-dia. Terminei a peça, comi algo e não lembro o que era. Assisti televisão, naveguei na internet, talvez tenha visto um filme, não me recordo.

O dia terminara, mas a noite seria eterna, eu sabia. Não queria mais aquelas verdades imediatas. A mulher e a criança ousavam invadir-me a mente, impedindo-me de dormir, apesar do cansaço. Sabia que várias das pessoas que muito falaram de manhã encontravam-se imersas em sono tranquilo, como bebês, pois era madrugada. A mesma sorte não me honrava, mas essa honra eu não queria. Orgulhava-me dos meus olhos abertos. Era a minha liberdade. Não dormir era a última homenagem que eu prestaria àquela família. Permaneci acordado, na escuridão que envolvia meus lençóis, e abracei a minha insônia. A insônia dos justos.

Renato T. de Miguel

Macaé, março de 2012

2 Comentários
  1. Mohand permalink

    Excelente… Diferentemente da Têmis o que o torna justo são os olhos bem abertos.

  2. dmiguelrenato permalink

    Boa observação, Mohand!

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