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Domingo – Filipe Piastrelli

by em 10/03/2012

Domingo

A angústia me toma subitamente, diante da consciência inequívoca da responsabilidade que não se esvai, apesar de adiada a cada momento, valendo-me sempre dos mais simplórios motivos. Mas de nada adianta. Torna-se apenas outro impulso na fuga inútil do inevitável.
Então, ocupo a cadeira atrás da escrivaninha. Ora, quantos papéis, quantas palavras! Levanto-me e olho pela janela: o sol brilha no quintal. Meu olhar se estende através dos muros e vejo a luz irradiando nas ruas, nas praças, nos clubes. Nunca me pareceu tão brilhante. As pessoas estão mais sorridentes, não tenho dúvida. A mesma sensação de todos os finais de semana. A vida lá fora, acontecendo. Aqui dentro eu, meu mau humor e a eterna dicotomia, responsabilidade contra a vontade de aproveitar. Não sei exatamente o que, mas tenho certeza que não os livros sobre a mesa.
Sento novamente. Uma respiração profunda como se puxasse ânimo para a empreitada. Olho para o relógio. São 9:10. A lógica é simples, afinal, quanto mais cedo começar, mais cedo termino. Outra inspiração longa. Levanto-me de novo. Preciso de um café. Aprecio o aroma único que se espalha no ar, enquanto a xícara se enche. O gosto, entretanto, não é tão agradável. Nunca é. Lentamente, dou fim àqueles três dedos de café, aproveitando as pausas entre os pequenos goles para pensar descompromissadamente desde a política educacional brasileira à posição do meu time no campeonato nacional de futebol. Quinze minutos se passaram, hora de voltar.
Na brevíssima caminhada entre a cozinha e o quarto reflito e decido, com a certeza e esperança das promessas de novo ano, que esta semana será diferente, claro. Tudo vai ser feito no prazo e, assim, no próximo domingo estarei livre. Mais uma vez diante do livro, opto por despender meia hora folheando o índice, avaliando cuidadosamente a organização, há segundos definida, para os dias que se seguirão.
Pronto! Agora sim. O que mesmo que eu precisava estudar? Ah, é mesmo, capítulo 34. Nossa, quantas páginas. Uma, duas, … dezesseis. Depois de duas linhas lidas e repetidas em voz alta com bastante atenção, é melhor conferir este número de páginas. Realmente eram dezesseis? Hum, eram. Duas linhas, melhor recomeçar. Lembro-me, porém, que ainda não troquei a água do Elvis, pobre cachorro, não tem culpa de minhas obrigações.
Finalmente, satisfeita a necessidade do animalzinho, deparo-me com meu tio na sala. Poxa, ele não era de visitar e uma boa conversa é sempre animadora. Seguem-se a compra na esquina, o almoço, a soneca de domingo – ora, é quase uma tradição –, chega o futebol.
18 horas. Domingo à noite. Existiria algo mais angustiante? Relembro o dia que desapareceu. Nem sol, nem leitura. E, também, já está tarde demais para começar alguma coisa. A esperança reside na segunda-feira. Espero, pois, apaticamente em frente a TV, a hora de deitar.
Filipe Piastrelli
2 Comentários
  1. dmiguelrenato permalink

    Excelente!

  2. Filipe, gosto especialmente deste! Seja bem-vindo!

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