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A alheia culpa é nossa – Thiago Amério

by em 08/03/2012

Meninos correndo, bola na parede, quebrada de vidro, estaladas no chão.

– Foi você! A culpa é sua. – um acusa o outro. Reciprocamente consentem que  o melhor caminho é esse. Dessa forma inexistem culpados. Ambos são despenalizados por suas consciências. Ora, a culpa alheia é.
Foi a partir daí que o professor começou a aula. O vídeo era repetido em todo início letivo. Já se sabia a história e aquele consequente sermão. Praxe. Lá ele iria recomeçar a tentar educar falando. Mas, para surpresa dos mais antigos, dessa vez não falou nada, apenas apontou para frente com movimento circulares. A roda se formou.

Olhei para o lado e ele, mimicamente, me ordenou silêncio. O grupo estava grande, afinal, no primeiro dia, quando tudo se espera, todos vêm. Tal situação me fez rir. Ver todos eles, essencialmente cômicos, obrigatoriamente sérios, era como um palhaço ser juiz. Não fazia parte do jeito deles. Realmente era um anacronismo engraçado. Ri alto.
Fui olhado com desprezo. Permaneciam concentrados no silêncio e eu, dissonante pela gargalhada. Ele mandou fazerem mais força para aguentarem a minha pressão. Achei ridículo. Como acalmar a agonia do riso? Ri mais alto.
Consegui desconcentrar uma. Ela usava óculos e um piercing no canto da boca. Boca cuja vontade de explodir não foi capaz de conter. Tão logo ela sorriu (desconcentrando-se), abriu o verbo e disse:

– Dele é a culpa (mirando-me com os olhos). Sou incapaz de me concentrar assim. Ri por ele.

Fiquei extremamente apreensivo. Bem verdade… não me consegui controlar, simplesmente, aconteceu. Porém, rapidamente, ele, o dono daquela sala de aula, até então mudo pelas atitudes alheias, gritou (em tom evangelizador):

– Embora muitos digam que o errar é humano (alguns, ainda, afirmam: colocar culpa nos outros é estratégia),  nós, humanos corajosos, capazes do nobre silêncio ao invés da arte de sorrir, não cometemos esse engano. Pois, sabemos que, mesmo sendo o caminho mais fácil, a alheia culpa é, e sempre será, também, nossa.

From → Thiago Amério

One Comment
  1. O riso é uma transgressão. O riso não faz reverência . Como artista, sou favorável a desconcertarmos todos os sistemas de dominação autoritária com muita gargalhada. Mas lendo este seu conto baseado em uma aula de teatro minha, relembro o professor que um dia fui. E o aluno que um dia você foi. Na verdade recordo mesmo do seu modo de falar quase sempre com aquele riso preso, as sobrancelhas preconizando o mostrar “contido” dos dentes.

    A verdade é que, pessoalmente, eu queria rir junto. E muitas vezes devo ter rido junto também. E fico muito feliz porque, encenando o personagem de professor disciplinador, eu consegui deixar algum valor humano em seu caminho. Nem todos devem ter compreendido a mensagem… e com o passar do tempo, eu mesmo precisei ler teu conto para recordar algumas coisas que esqueci. O fato é que é um grande presente para mim reconstituir aqueles dias de uma maneira tão bonita assim através do teu conto.

    Muito obrigado pelo carinho, pela memória… Saiba que li tudo com um riso sincero localizado nos dois cantos da boca e com os olhos brilhando. Olhos umedecidos de nostalgia e umedecidos de esperança renovada . Um grande abraço, meu aluno, meu amigo de jornada.

    Obs: Uma reflexão interessante sobre “culpa” / “responsabilidade” encontra-se no livro “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera. Vale a pena conferir….

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