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Ao meu Pai – Ana Ney

Um poeta nunca morre enquanto for inspiração para poesia-amor…

Qual a força que a um verso se destina,
se sabe que é verso e quer voar?
Todo verso tem bem mais que tinta e rima,
tem um coração a extravasar..
 
Versos sempre tem bem mais que um destino…
Tem a sina de ter sempre AMOR para dar…
 
Entristeço quando versos de menino,
mesmo lindos já precisem descansar
 
 
 
Descansar

“Eu sei” (Renato Miguel)

Ao toque do sino
Vibraram tuas velas
Convoco as funestas baladas
Sorvi teu incenso
Soprei a bruma ocre
Sorri à iminente jornada

Sei bem quem és tu
Teus dias escuros
Teu peito ligeiro a arder
A ânsia de um fraco
A farsa em tocaia
Teu grito em silêncio: prazer!

Sou quem tu procuras
Nos becos da alma
Teus medos são bestas aladas
A razão tão distante
Qual lua minguante
Bravura, uma fera esgotada

Servi, tão contente
O sangue em teus lábios
Farejo o terror trovejar
A morte te segue
Os olhos já falham
À alma só resta chorar

Não há mais sentidos
Tampouco há razão (eu sei)
Encarno e contemplo teus feitos
Os montros se erguem
Brandindo navalhas
Seus pés são desertos desfeitos

Loucura! É o que dizes
O sangue não mente
Escorre das mãos à cabeça
Teu olhos fechados
E os punhos cerrados
Apendendem a velar a tristeza

Mas nunca me culpe;
E aqui lhe questiono:
Anseias ainda acordar?
Vá entorpecido
Ereto e ferido.
Ao menos consegues sonhar.

Cartas ao espelho

Prezado senhor,

Desconheço uma forma agradável de iniciar esta carta, pois não há homem vivo que se sinta confortável ao ser francamente confrontado pelo que de mais sombrio carrega na própria natureza. Mas vá lá. Há um surrado e verdadeiro ditado que anuncia o seguinte: “quem avisa, amigo é”.

Foram tantos os dias de silêncio que em silêncio permaneci no dia em que você chegou. Sem aviso, entrou pela porta e fez uma leve mesura. Fiquei curioso, mas mantive-me quieto, afinal, primeiro dá bom dia aquele que chegou por último. Não sei se recordas, mas passou a falar distraídamente sobre coisas banais, como o vento, os livros que deixara de ler e os tantos outros que pretendia ainda desbravar. Falou ainda sobre o estado das coisas, que sempre tendiam a piorar com a chuva, visto que as casas da cidade andavam mal cuidadas. Nem sempre foram assim, disse eu, ainda meio quieto, dando-lhe coragem para prosseguir. Vez ou outra sorria, é verdade, mormente quando o assunto passava pelo prazer com que os esportes de verão presenteavam os jovens que guardavam menor apreço pela solidão do lar. Surpreso, percebi que aquela tarde quieta sustinha uma sensação agradável, como se velhos amigos, há muito distantes, tivessem redescoberto o carinho que mantinham um pelo outro. Havia ainda momentos de silêncio, mas já não eram um incômodo e sim mera pausa para a justa reflexão sobre tudo o que fora dito. E assim, gradativamente, o silêncio foi se desvanecendo em meio às risadas e lembranças de tempos mais simples, em que a tudo se podia sorrir. É curioso como as risadas são mais frequentes e intensas quando somos crianças. Produto da imaturidade, eu dizia: “na infância, a única reação sincera à euforia e à alegria é uma boa e gutural gargalhada”. Tendemos, todavia, a enxergar as coisas de forma mais séria e impassível na medida em que crescemos, quando então os momentos de alegria são contidos em maior ou menor medida pela complexa rede de agravos e preocupações inerentes à vida adulta. Nossos olhos se estreitam diante da luz e ficamos insensíveis às cores mais vivas. Mas ali estávamos nós, rindo como crianças novamente, alheios a tudo o que passara e a tudo o que viria. Não falávamos mais de passado, tampouco do futuro, nossas vozes, agora, eram guiadas apenas pelo prazer egoístico que representava aquela ausência momentânea de solidão. Banido estava o desespero velado que experimenávamos todos os dias nas nossas casas e camas vazias. Era tudo, é claro, uma ilusão conhecida, que era recebida de bom grado naquela tarde em particular. “Antes o embuste de um sorriso que uma leal navalha entre as costelas”, dizia-me. Levantou-se e foi até a janela. Olhei com espanto. Jamais imaginaria ser você aquele a acender sozinho um cigarro em plena terça-feira. De imediato lembrei de um verso do Fernando Pessoa que dizia “abre tôdas as portas e que o vento varra a idéia; que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões”. Tu não eras Fernando Pessoa. E eu não era um leitor apaixonado descobrindo o amor através de palavras doces escritas para desconhecidos há muito perecidos. Enquanto fumavas quieto, pensei em como tanta gente era pra nós poesia, versos vazios mais ocupados com a simetria e beleza das palavras que com o seu real significado (ainda que existisse apenas nos limites do que imaginava o seu poeta-criador).

Éramos agora muito diferentes, notei com tristeza enquanto o sol baixava no céu e pavimentava o caminho para a noite que caía pesada sobre nós. Eu dizia “igualdade” e tu me respondia “força”. Eu dizia “liberdade” e tu me respondia “ordem”. Eu dizia “progresso” e tu me respondia com mais daquele silêncio ferino. Já não podia mais confiar no poder desse sentimento ilusório, frágil, mas que nos fizeram crer ser o sentido da vida desde que respiramos pela primeira vez, desde quando ainda não sabíamos distinguir nosso próprio “eu” do mundo que nos cercava; desde o dia em que ainda não havíamos migrado do caos ao cosmos. Sim, éramos de fato muito diferentes, tanto que já nem reconhecíamos um ao outro, ainda que estivéssemos diante de um espelho. Era, como tantos outros, um prazer efêmero, desejavelmente descartável, ilusoriamente necessário e incontestavelmente maligno. Como tantos outros, chegava e partia como o brilho inconstante de um vagalume à meia-noite. Um brilho que não ameaçava a escuridão da madrugada e que apenas existia para nos lembrar da nossa insignificância diante da natureza, que preexistia ao nosso ego, aos nossos credos e aos nossos valores. Assim, aquele final conhecido já batia à minha porta com as primeiras luzes da manhã. Iria embora novamente, dessa vez para nunca mais voltar. E esse era um pensamento renovador, até mesmo encorajador. Iria embora, mas o espelho em que nos encontramos permaneceria enquanto eu ainda estivesse ali. E todo o sofrimento resultante desta fuga seria, ao contrário do que sempre fora, um sentimento bem vindo, enriquecedor. Seria como tatear de olhos fechados as próprias paredes do samsara e mesmo na escuridão tudo ficaria mais claro. Não haveria mais poesia, apenas palavras certas, escritas por aqueles que de fato diziam verdades, ainda que fossem feias aos olhos dos homens comuns. E os incautos seguiriam recitando versos diante do espelho, acreditando que um vagalume, por mais brilhante que fosse, um dia iria trazer-lhes um brilho que desafiasse sua própria madrugada. De longe eu apenas observaria. E sentiria pena.

Atenciosamente,

Justa Inquisição – Renato Miguel

A um deus de vidro sua atenção se ajoelhava
Trilhas em círculos prometiam ilusões
Era um esgrimista sem florete; sem espada
Um enxadrista sob as ordens dos peões

Sobre a cabeça uma coroa fraturada
Suas sentenças são a justa inquisição
No horizonte seus exércitos sem farda
Na neve clara escorre o sangue dos irmãos

Em seu reinado a cor da pele é lei divina
Os deuses-homens vivem em torres de marfim
Em sua história o amor é feito cocaína
O ódio à paz era princípio, meio e fim

E os condenados como números sem alma
Nus e descalços, seu pecado era existir
À luz vermelha os filhos morrem na calçada
À prata amada o seu fadário era servir

O rei que não chora – Renato Miguel

Existe um meio dia entre o bravo e o covarde?
Se a via é estreita os olhos se fecham
Coragem sem medo é um sol que não arde
Se o fim não vem tarde os grandes se entregam.

Por que não me dizes que o inverno tem hora?
Teu rosto não cora, mas ainda é verão
O frágil soldado é um rei que não chora
Fiel, vai embora. Aos céus, o perdão.

O ócio se enerva, o lar é um veneno
À luz, em um momento, mil jóias quebradas
Vermelhos cabelos, ao longe, um alento
Mas meu sofrimento tem voz e não cala.

Valente, me deixo a sair em silêncio
Neste poema, daqui nada há
Ausente é a alvorada; a espera é um tormento
Os sonhos se calam diante do mar.

Poema I – Renato Miguel

Muitos dos homens que se diziam crentes caíram sós de repente, prostrados diante do nada;
E muitas horas que se seguiam contentes eram leões sorridentes,
Ricina em frasco de prata.

Mas todas as vezes que nos viramos doentes,
De tudo pouco cientes, à luz da lua gelada,
A vida e a morte beijavam-se solenemente;
Amavam-se honestamente e corriam ao sol de mãos dadas.

E a bela princesa na torre presa a correntes,
Já não mais sabe o que sente, já não se lembra de casa.
Pois o deus dela é um menino louco e inocente, sua obra é dura e eloquente.
Drama em um conto de fadas.

Mas sua alegria no meu corpo é uma semente, dor é a vida de quem sente, como a luz na madrugada.
E o nosso medo é o universo consciente…
de que temos sempre à frente…
um sol que arde na esplanada.

Nau – Renato Miguel

No fim do mundo um canto de sereia
Guiava os bravos rumo à escuridão
Em calmaria a nua nau vagueia
As velas murchas choram em perdição

Não há estrelas nesse céu vazio
Não brilha a noite sobre a nau perdida
O teu silêncio grita em desafio
“Nesta esperança já não há mais vida”

E minha vontade é feita de horas negras
A todas elas sobrevive a dor
A fome é o mar que em paz a nau alegra
A morte é a terra, o único clamor

Segui ferido; a bandeira rasgada
Não há mais guerras… A morte é nossa luta
Não há trombetas que soem à tua chegada
Só resta a vida que essa tal paz deturpa

E nesse chão só vejo conchas mortas
Sob os meus pés histórias de vilões
Herois que nunca bateram à tua porta
Venderam as almas por seus corações

(E agora)
O frio e a chuva são meus escudeiros
Meus bons amigos há muito abandonei
No paraíso há morte e desespero
Escolho o inferno…
Lá sou amigo do rei

Elegias para o mar – Renato Miguel

Nascera em um mundo em que todos os navios levavam em seus cascos os nomes de belas mulheres. Seus capitães, com os rostos sofridos, morriam cedo, mas assim era a vida dos homens que viviam no mar. No mar fora criado, embora pouco soubesse nadar. As ondas causavam grande fascínio. Eram ferozes e destruíam as mais fortes embarcações. Eram gentis e, com espumas brancas, beijavam os pés dos jovens que corriam chapinhando gotas salgadas ao sabor do vento. Era o melhor e o pior da vida. O céu e o inferno. Era poesia nos dias de sol e um canto fúnebre em uma borrasca. Uma corda bamba sobre o paraíso. E o inferno espreitava logo abaixo. Nada disso o assustava, no entanto, pois já havia encomendado ao Grande Armador seu próprio veleiro. E seu casco também ostentaria o nome de uma jovem mulher, do tipo que não usa flores no cabelo e não entoa canções à primeira luz da manhã, que não perdoa e responde em maior tom as ofensas que recebe; daquele tipo que concentra toda a doçura nos lábios e não no ser ou no obrar. Os homens mais velhos diziam que ele era louco… Morrerá cedo, advertiam. Não se entristeçam por mim, ele respondia. Ao meu lado tenho todos os poetas do mundo. E assim é a vida dos homens que vivem no mar.

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Palavras sentidas – Thiago Amério

palavra sentida

Se as palavras que são ditas,
cujas as formas são escritas,
São difíceis de explicar…
Imagine as que sentidas
(Não passíveis de tocar),
não se podem ser ouvidas…
Será que sabem falar?

 
Ora, não é porque ninguém as vê,
que são frutos de ilusão,
na realidade é da mais pura linguagem:
– o idioma do coração.

Lótus

Noite quente
Lua clara
Iluminando a soleira
Menta mansa
Alvorecer da alma
Coração feito lareira
Tocam sinos
Está desperto
Sente a relva sob os pés
Mira o mantra
Sorve o incenso
Ouve o canto dos fiéis
Segue ereto
Abre os olhos
Lança ao fogo o seu orgulho
Reza ao mortos e ao presente
Esculpia o seu futuro
Vento suave
As folhas caem
Sob o sol se pôs de pé
Com a palavra se alegrava
Via ao longe a sua fé

Sonetos a esmo – Renato Miguel

Nos recônditos do espírito rezam os nossos prantos,
E frias são as amarras dos grilhões da mente.
Ao fervor do negro orgulho me ofereço, insano.
Vivo perto. Quase ao lado. Mas os passos mentem.

Segue em triste descompasso de um amar cigano
Tanta vida, seu passado é um tormento.
Mas não penses que tua fuga é um novo dia, estranho
Em mil anos, só lembramos de um momento.

Porque sonhas que o destino é se entregar lutando
Que o que dizem é o obrar de um testamento
Mas as leis nós que fazemos e sacramentamos

Cada sangue corre em glória e sofrimento
Se não sabes, tuas chagas são as que mais amo
Tua aflição, por outro lado, é o que lamento

Poema em linha torta – Renato Miguel

À meia-noite meu sino tocou
Prata de lua nos cabelos teus
Encanto em verve que se anunciou
No teu sorriso meu andar se fez

Contei meu nome e não me respondeu
Cantou de volta o teu encanto em luz
Fugiu com as asas que o medo lhe deu
Mordeu o silêncio que o terror seduz

Efígie nobre, ao meu chamado torna!
Traz novas cores ao destino quisto
Ao meu afago tua bocheca cora
Não sei se luto ou se de vez desisto…

Corremos juntos num sonho inquieto
Em minha vigília fiz nossa canção
Não diga, eu sei, meus versos não são certos
Não sou poeta, vivo o coração.

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Criança com verso – Thiago Amério

Hoje é dia de conversa franca,
naquele tom que criança conta,
porém em versos tal qual brinquedo
que jovem joga entre os dedos.
 
É… em tempos de globalização,
do tablet que ofusca a visão,
comumente se esquece dos jogos do passado,
dando valor ao abstrato
em vez do amor-presente do tato.
Porém não vamos reclamar,
pois há crianças que brincam di(verso)
(e por essas eu esqueço o resto).
 
Conversas de versos dão azo à infância,
são asas dos sentimentos rememorados
nos jogos de esperança nas letras.
 
Muitas crianças são poetas,
querem esse contato real,
de pessoas alfabetas
de amor extra-digital.
amor-redes-sociais
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A Pílula Indesejada – Mohand Gomes Araújo

Em casa, finalmente só, Zaíra tinha esse encontro marcado desde cedo. Sair de casa era um desafio em si. Ora! É frustrante ver cabeças baixas, olhos vidrados, e eventualmente sorrisos incógnitos. As cabeças pareciam pedir um grito, um susto, talvez um bom empurrão. Daí se manifeste algo, ira, espanto, talvez indignação. Os olhos vidrados faziam ela se sentir menor, desinteressante, transparente. Vez por outra quando lhe fitavam, essa transparência ficava óbvia: não era vista.

E os sorrisos? Para ela era efeito colateral de uma “terapia alopática contemporânea”, assim nomeou. Eis a profilaxia: Abre-se uma tela, leem-se algumas frases, visualiza-se uma imagem, talvez um gif, e em segundos uma alegria efêmera lhes atravessa o rosto, o que em segundos se esvai. Ministrar em doses abundantes, proporcionais a dormência emocional.

Nesse dia em questão houve algo diferente.

Havia passado horas em discussões sobre o quadro atual, o que mais era um convite para um breve fim a sua vida do que algo mais animador.

Saúde? Filas e mais filas, corredores lotados, e o blablabla conhecido.

Educação? “Os professores deveriam ser mais valorizados”, e logo em seguida, “Deus me livre de meu filho ser professor!”.

Política? Já temos o velho clichê: Corja!

Diante de tão grande confusão, em que nada é preto no branco, só uma coisa é clara, a confusão.Esse tempo de suposto engajamento político social não simboliza nada de distinto, entretanto, algo genuíno aconteceu.

Ela não aguardava nada além de sorrisos pontuais em sua insossa rotina.unnamedContudo, no metrô havia uma jovem moça. Por certo tinha a sua idade, portava uma vestimenta similar a sua, não fosse por alguns apetrechos mais informais e por uma bolsa de uma marca desconhecida.

A moça trazia um filete escorrendo pelas maçãs do rosto, via-se em sua expressão um grito silencioso que, se audível, ensurdeceria a todos com sua tristeza dilacerante. A triste moça foi, inesperadamente, notada por Zaíra, que logo se viu absorta em indagações que antes não transitavam por sua mente.

Sem se perceber, não estava mais ministrando o seu remédio de emoções compartilhadas por um toque, estava ali, já há alguns minutos, investigando cada soluço manifestado pela moça. Emergiram autocríticas, palavras severas consigo mesma, por encarar as lágrimas uma a uma, e até certo encorajamento para sentar-se ao lado da infelicidade e oferecer-lhe um ombro, mesmo que desconhecido.

Lembrou-se de sua doutrinação religiosa, rememorou sua ética profissional, vasculhou entre as sabedorias da família que pululavam em sua mente, porém nenhuma resposta fisgou. Não há um item no seu Estatuto profissional, nem capítulo de livro sagrado, nem imperativo educacional que correspondesse à tamanha estupefação.

Nada fez.

E agora, entrando em sua casa de poucos cômodos, ainda carregando aquele incômodo, pôde notar que uma dose cavalar de emoção estava em vias de ser absorvida, estava impregnada em sua alma aquela impressão.

Pouco pôde fazer, há muito a ser processado, sobretudo quanto ao desconhecido que aflige a desconhecida. Queria saber sobre tudo, e ao mesmo tempo saber sobre nada. No futuro do pretérito está o desejo do que já não mais é possível. Ali, a contragosto seu, do sistema e de sua educação, nasceu outra mulher.

Relâmpago em céu claro – Renato Miguel

Despertar era a parte mais difícil. A tênue luz do sol filtrada pelas cortinas feria os olhos e a cabeça pesava feito um saco de cimento. No estômago avultava um mal-estar, como se estivesse preenchido por um bolo de algodão. Os distantes sons de carros e de obras na vizinhança martelavam sua mente com a sanha de um homem cruel. Finalmente conseguiu levantar o tronco, que apoiou sobre um cotovelo. Os dígitos vermelhos do relógio ao lado da cama apontavam dez da manhã. Levantou-se e foi ao banheiro para lavar o rosto. Mantinha um aspecto sofrido, os olhos inchados e os lábios ressecados. Precisava de um copo d’água, calculou com a mente ainda meio enevoada. Pés ligeiramente trêmulos levaram-no à cozinha, onde se hidratou e umedeceu a garganta. Jogou o corpo ainda acabado sobre uma poltrona na sala e, naquele momento, percebeu que este seria o resumo do seu dia. Uma viagem silenciosa e preguiçosa ao interior da própria cabeça, enquanto o corpo, exausto, celebrava sua fraqueza através da imobilidade quase absoluta. Não era ruim, pensou. Nessas ocasiões forçava-se a meditar. Não apenas sobre o dia anterior, mas sobre tudo aquilo que passava diante de seus olhos sempre como uma película, mas que por conta da atribulação da rotina acabava frequentemente relegando a um plano inferior. Pensou em tudo o que havia dito. Nas horas certas e erradas. E tudo o que deixara de dizer. Pensou em tudo que tinha feito e pensou, sobretudo, sobre o que gostaria de ter feito de outras formas. Notou que suas obrigações assomavam com mais força do que gostaria de admitir e que sua vida rumava em crescente velocidade a um ponto em que seus prazeres eram cada vez mais culpados pelos pequenos fracassos do dia a dia. Constatou, não sem certa amargura, que se foi o tempo em que ser um hedonista sincero era uma opção aceitável em sua jornada pessoal. Também com amargura, pensou nos velhos amigos que hoje conversava com uma cordialidade firme, porém distante. Era curioso como a melancolia se mostrava uma parceira contumaz da reflexão. Mas isso, de certa forma, era até desejável. A euforia frequentemente o cegava, enquanto o coração pesado geralmente tornava as coisas mais claras. Era estranha, essa consciência, mas não deixava de ser bela, como um relâmpago em céu limpo. Seguiu deitado, não notando as horas passarem lentamente do lado de fora. Mas era irrelevante, porque, hoje, o tempo que contava corria por dentro.

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Hoje – Ana Ney

poeta

 

 

Quero trazer-lhe hoje rosas brancas
Como o pedido que já fez um dia
Pois conversando com essas flores francas
Percebo que cumpriu a profecia
Como previu foi mesmo num domingo
Que havia outras flores no peito
E vela e cal e terra e pá e pingo
Só que a segunda foi de outro jeito
Podemos ter segundas coloridas
Com prosa e poesia, ser festeira.
Até vamos levando nossas vidas
Mas, nunca mais segundas são inteiras…
Seguindo a previsão deste momento
Sua alma está sorrindo numa estrela
Então levo o olhar ao firmamento
Sabendo que já sou capaz de vê-la
E lá está riscando amarelinha
Agradecendo a Deus por ser poeta
E a vida que escreveu nas entrelinhas
Mas só na eternidade se COMPLETA!
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